Bem no
final da década de trinta do século passado, enquanto a Europa fervia com o
prenúncio da tormenta que seria a segunda guerra mundial, um jovem de cabelos
louros e olhos bem azuis aportava em Recife. O nome que recebera na pia batismal
era o mesmo do odiado líder político de sua terra natal. No entanto, a
semelhança entre os dois não ultrapassa o prenome, pois o Adolfo de quem vou
falar foi uma das pessoas mais cândida, mais pacífica e mais tranquila que
conheci nessa estrada da vida que percorro há tanto tempo. Contabilista formado
em sua cidade, Hamburgo, trocara sua pátria pelo Nordeste brasileiro, não só
atraído pela oferta de emprego que a grande empresa dirigida pela família
Lundgren lhe havia proposto, mas, certamente, para escapar do complicado
momento político por que passava seu país.
Um dos
prazeres do jovem alemão era jogar tênis com alguns colegas de trabalho, vários
deles seus compatriotas, pois nos quadros administrativos das Casas
Pernambucanas, cuja sede, na época, ficava em Recife, havia vários funcionários
de nacionalidade alemã.
Arlinda
era uma morena bonita, extrovertida, adorava dançar e frequentava o mesmo clube
onde o jovem alemão praticava o referido esporte. E foi justamente ao vê-lo de
raquete em punho, que num domingo no início da década de quarenta, um cupido de
plantão atirou-lhe a tal flecha do amor, aliás, não apenas em sua direção, mas
acertando também o jovem e belo tenista. Daí as juras de amor que nascia entre
a morena de olhos negros e o louro de olhos azuis somente seriam abaladas pelo
acontecimento político que marcou profundamente àquela época, a declaração de
guerra entre o Brasil e a Alemanha.
Num piscar
de olhos, o jovem que até então era tido como um grande amigo do Brasil, passou
a ser olhado com a lente da desconfiança. Afinal era um alemão e ainda por cima ostentando o
mesmo nome do odiado líder máximo do nazismo e, como consequência, a linda
morena Arlinda era admoestada e pressionada, inclusive por familiares, para que
rompesse o namoro com o "inimigo".
Apaixonada,
aliás, gamada pelo belo tenista germânico, Arlinda fincou o pé: "Não
acabo, pois estou amando". E estava mesmo, pois a imensa campanha
antialemã que tomou conta do país, inclusive com depredações e ataques a
inúmeros estabelecimentos comerciais de propriedade de germânicos, na verdade,
não mudou o posicionamento da jovem morena. "Estamos apaixonados e nenhuma
guerra vai nos separar". E não separou mesmo, pois nem a cadeia imposta
ao jovem Adolpho, preso e recolhido à Casa de Detenção de Recife pelo
"crime" de ser alemão, conseguiu afastar a linda morena de seu amado.
Na verdade uniu ainda mais, pois todos os dias em que eram permitidas as
visitas, lá estava ela, sempre levando alguma coisa ao jovem prisioneiro.
Aí surgiu
a novidade que abalou os alicerces da família. "Papai, o senhor vai ter
que assinar um termo de responsabilidade para que o Adolfo saia da cadeia. Conversei
lá na Casa de Detenção e ele pode passar para a prisão domiciliar, ou seja, ficar
aqui em casa, desde que o senhor se responsabilize por ele. E o senhor vai se
responsabilizar." - assim disse resolutamente a jovem Arlinda. Bem, não
vou afirmar que o velho Luiz Máximo, pai da jovem morena e meu avô paterno,
tenha saltado de alegria com a imposição da filha. Ao revés, seus brios
patrióticos e seu anti tudo que cheirasse a germanismo, sem dúvida, insuflado
pela grande propaganda contrária aos inimigos, fato que acontece em todas as
guerras, emperdigaram-no numa revolta íntima. "Arlinda está louca! Botar
um alemão para morar aqui dentro de casa!". Mas, o amor paterno e, claro,
o bom senso, falaram mais alto e, dias depois, lá estava “o inimigo” vivendo em sua casa,
e melhor de tudo, bem
pertinho de sua amada, embora, quanto às intimidades, evidentemente com as
restrições próprias da época, monitoradas por todos os lados.
No
entanto, as restrições não foram muito longe, pois alguns meses depois, numa
cerimônia simples, o jovem Adolpho Werner Kautz casava-se com a também jovem Arlinda
Pereira de Araujo, que passou a chamar-se, orgulhosamente, Arlinda de Araujo
Kautz. E o prêmio não tardou a chegar, pois no dia 13 de abril de 1944, para a
alegria de todos, inclusive de meu avô, nascia um bebê bem lourinho como o pai
que na pia batismal recebeu o nome de Frederico e, durante toda a sua vida,
ostentou o apelido de Fred, um primo de quem trago muitas e muitas lembranças.
Tio Adolpho ocupa um lugar muito especial em
meu baú de recordações. Lembro-me, e muito bem, de sua aparência desde bem jovem ao chegar ao Rio de Janeiro, logo
após o termino da segunda guerra mundial e até muitos anos depois, já nos seus
derradeiros dias, movimentando-se com muita dificuldade em razão de um
reumatismo deformante que atacou suas pernas e mãos. Acompanhei a trajetória de
sua vida familiar, com muitas e muitas visitas, muitas conversas, bem como o
crescimento de seus filhos Fred e Vânia, uma lourinha que na juventude chamava
a atenção por sua beleza germânica, por seus olhos azuis cor do céu.
O
passar do tempo é o maior destruidor de tudo o que existe, seja ruim ou bom. Só
não destrói as recordações. Meus tios Adolfo e Arlinda, há muito já não
habitam esse vale de lágrimas e sorrisos em que estamos inseridos. Meu primo
Fred viveu muitos anos na Europa, retornou casado com Hertha, uma alemã que
conheceu em Paris e com quem teve dois filhos. Viajava constantemente para os
quatro cantos do mundo, na qualidade de alto funcionário do BNDES e morreu
cedo, coincidentemente, atacado pelo reumatismo deformante idêntico ao de seu
pai. Minha prima Vânia, ainda é muito bonita, teve duas filhas, ambas bem
casadas e atualmente vive em Curitiba.
Viver é também ir morrendo aos poucos, pois
cada dia que passa corresponde a um. dia a menos que nos separa do dia de todos.
Gosto de escrever e, enquanto a
memória der permissão procurarei resgatar retalhos de minha vida e de outras
pessoas que também passaram por ela e deixaram a marca indelével de suas
existências em meu baú de memórias. Meu
tio Adolfo foi uma delas.