domingo, 18 de junho de 2017

MEU TIO ADOLFO


    Bem no final da década de trinta do século passado, enquanto a Europa fervia com o prenúncio da tormenta que seria a segunda guerra mundial, um jovem de cabelos louros e olhos bem azuis aportava em Recife. O nome que recebera na pia batismal era o mesmo do odiado líder político de sua terra natal. No entanto, a semelhança entre os dois não ultrapassa o prenome, pois o Adolfo de quem vou falar foi uma das pessoas mais cândida, mais pacífica e mais tranquila que conheci nessa estrada da vida que percorro há tanto tempo. Contabilista forma­do em sua cidade, Hamburgo, trocara sua pátria pelo Nordeste brasileiro, não só atraído pela oferta de emprego que a grande empresa dirigida pela família Lundgren lhe havia proposto, mas, certamente, para escapar do complicado momento político por que passava seu país.
    Um dos prazeres do jovem alemão era jogar tênis com alguns colegas de trabalho, vários deles seus compatriotas, pois nos quadros administrativos das Casas Pernambucanas, cuja sede, na época, ficava em Recife, havia vários funcionários de nacionalidade alemã.
     Arlinda era uma morena bonita, extrovertida, adorava dançar e frequentava o mesmo clube onde o jovem alemão praticava o referido esporte. E foi jus­tamente ao vê-lo de raquete em punho, que num domingo no início da década de quarenta, um cupido de plantão atirou-lhe a tal flecha do amor, aliás, não apenas em sua direção, mas acertando também o jovem e belo tenista. Daí as juras de amor que nascia entre a morena de olhos negros e o louro de olhos azuis somente seriam abaladas pelo acontecimento político que marcou profundamente àquela época, a declaração de guerra entre o Brasil e a Alemanha.
   Num piscar de olhos, o jovem que até então era tido como um grande amigo do Brasil, passou a ser olhado com a lente da desconfiança. Afinal era um alemão  e ainda por cima ostentando o mesmo nome do odiado líder máximo do nazismo e, como consequência, a linda morena Arlinda era admoestada e pressionada, inclusive por familiares, para que rompesse o namoro com o "ini­migo".
   Apaixonada, aliás, gamada pelo belo tenista germânico, Arlinda fincou o pé: "Não acabo, pois estou amando". E estava mesmo, pois a imensa campanha antialemã que tomou conta do país, inclusive com depredações e ataques a inúmeros estabelecimentos comerciais de pro­priedade de germânicos, na verdade, não mudou o posicionamento da jovem morena. "Estamos apaixonados e nenhuma guerra vai nos separar". E não separou mesmo, pois nem a ca­deia imposta ao jovem Adolpho, preso e recolhido à Casa de Detenção de Recife pelo "crime" de ser alemão, conseguiu afastar a linda morena de seu amado. Na verdade uniu ainda mais, pois todos os dias em que eram permitidas as visitas, lá estava ela, sempre levando alguma coisa ao jo­vem prisioneiro.
    Aí surgiu a novidade que abalou os alicerces da família. "Papai, o senhor vai ter que assinar um termo de responsabilidade para que o Adolfo saia da cadeia. Con­versei lá na Casa de Detenção e ele pode passar para a prisão domiciliar, ou seja, ficar aqui em casa, desde que o senhor se responsabilize por ele. E o senhor vai se responsabilizar." - assim disse resolutamente a jovem Arlinda. Bem, não vou afirmar que o velho Luiz Máximo, pai da jovem morena e meu avô paterno, tenha saltado de alegria com a imposição da filha. Ao revés, seus brios patrióticos e seu anti tudo que cheirasse a germanismo, sem dúvida, insuflado pela grande propaganda contrária aos inimigos, fato que acontece em todas as guerras, emperdigaram-no numa revolta íntima. "Arlinda está louca! Botar um alemão para morar aqui dentro de casa!". Mas, o amor pa­terno e, claro, o bom senso, falaram mais alto e, dias depois, lá estava “o inimigo” vivendo em sua casa, e   melhor de tudo, bem pertinho de sua amada, embora, quanto às intimidades, evidentemente com as restrições próprias da época, monitoradas por todos os lados.
      No entanto, as restrições não foram muito longe, pois alguns meses depois, numa cerimônia simples, o jovem Adolpho Werner  Kautz casava-se com a também jo­vem Arlinda Pereira de Araujo, que passou a chamar-se, orgulhosamente, Arlinda de Araujo Kautz. E o prêmio não tardou a chegar, pois no dia 13 de abril de 1944, para a alegria de todos, inclusive de meu avô, nascia um bebê bem lourinho como o pai que na pia batismal recebeu o nome de Frederico e, durante toda a sua vida, ostentou o apelido de Fred, um primo de quem trago muitas e muitas lembranças.
   Tio Adolpho ocupa um lugar muito especial em meu baú de recorda­ções. Lembro-me, e muito bem, de sua aparência desde  bem jovem ao chegar ao Rio de Janeiro, logo após o termino da segunda guerra mundial e até muitos anos depois, já nos seus derradeiros dias, movimentando-se com muita dificuldade em razão de um reumatismo deformante que atacou suas pernas e mãos. Acompanhei a trajetória de sua vida familiar, com muitas e muitas visitas, muitas conversas, bem como o crescimento de seus filhos Fred e Vânia, uma lourinha que na juventu­de chamava a atenção por sua beleza germânica, por seus olhos azuis cor do céu.
     O passar do tempo é o maior destruidor de tudo o que existe, seja ruim ou bom. Só não destrói as recor­dações. Meus tios Adolfo e Arlinda, há muito já não habitam esse vale de lágrimas e sorrisos em que estamos inseridos. Meu primo Fred viveu muitos anos na Europa, retornou casado com Hertha, uma alemã que conheceu em Paris e com quem teve dois filhos. Viajava constantemente para os quatro cantos do mundo, na qualidade de alto funcionário do BNDES e morreu cedo, coinciden­temente, atacado pelo reumatismo deformante idêntico ao de seu pai. Minha prima Vânia, ainda é muito bonita, teve duas filhas, ambas bem casadas e atualmente vive em Curi­tiba.
    Viver é também ir morrendo aos poucos, pois cada dia que passa corresponde a um. dia a menos que nos separa do dia de todos. Gosto  de escrever e, enquanto a memória der permissão procurarei resgatar retalhos de minha vida e de outras pessoas que também passaram por ela e deixaram a marca indelével de suas existências em meu baú de memórias.  Meu tio Adolfo foi uma delas.


domingo, 4 de junho de 2017

ANTONIO SÉRGIO CARVALHO PIMENTEL

   
        O ano era o de 1940 e, parodiando viagens anteriores, lá íamos nós, minha mãe e os quatro  filhos de então rumo a Belo Horizonte,refúgio de minhas reminiscências dos anos azuis da infância e adolescência. As dezesseis horas no interior de uma antiga e lerda Maria Fumaça, longe de ser uma provação, tornara-se um encantamento para minha sensibilidade infantil. Adorava o ritmo cadenciado e os solavancos dos vagões, os apitos e mesmo a fumaça enjoativa que invadia a composição quando os vários túneis do trajeto eram atravessados. Minha admiração pelas viagens ferroviárias  se estenderia ainda por muitos anos, transferindo- se  na idade adulta para os confortáveis  trens de aço Vera Cruz e Santa Cruz que faziam as linhas do Rio para Belo Horizonte e São Paulo. Não renego minha saudade de um meio de transporte que nunca deveria ter deixado de existir, principalmente num país tão grande como o  Brasil.
      Nos tempos de criança, fizemos várias viagens ferroviárias e Belo Horizonte, antes e depois da de 1940, pois na capital mineira residiam meus avós maternos e  nossa presença na bela capital era constante, principalmente nos fins e meados de cada ano.  Meu pai raramente participava desses deslocamentos, em razão de seu trabalho, mas minha mãe, às vezes com uma criança no colo e outra na barriga e sempre acompanhado de outros filhos, era presença constante  naqueles tempos em que a ferrovia era o principal  meio de transporte. 
    No entanto, a viagem de 1940, marcou-me por uma circunstância que iria influenciar minha vida inteira, o conhecimento e início de uma grande amizade com um menino também hospedado em casa de nossos avós comuns. De fato, ao chegarmos em Belo Horizonte deparamos com uma família que eu ainda não conhecia: meu tio Benedicto, irmão de minha mãe que até então  residia em Campinas, sua então esposa e os dois filhos, Sérgio e Sônia. Meu querido tio Benedicto ainda iria casar-se em segunda núpcias, gerando uma nova família e mais cinco filhos.
     Sérgio, um ano mais velho do que meu irmão Luiz Antonio e dois anos mais do que eu, logo tornou-se uma espécie de líder de nossas influências e brincadeiras. Nossas idas a BH dos tempos infantis e adolescentes tornaram-se mais prazerosas, graças à amizade com nosso primo. Eu, Luiz Antonio e Sérgio formávamos um trio inseparável que se solidificou ainda mais, quando, ainda adolescente, meu primo foi morar em nossa casa no Rio de Janeiro.  Foi, portanto, mais um irmão que se agregou à nossa família.
   Bem mais tarde, funcionário de Prefeitura de Belo Horizonte, Sérgio passou algum tempo em nossa casa no Rio de Janeiro, bairro de Botafogo, onde fora fazer um curso na Fundação Getúlio Vargas. Coincidentemente, lá também estava hospedada uma jovem prima de minha mãe, a meiga ouro-finense Mabel e desse encontro deu-se o rastilho de um amor que geraria uma grande família em todos os sentidos.
  Há alguns dias atrás, num domingo, saía eu de uma sessão de cinema no Rio de Janeiro quando lá pelas dez da noite recebi a notícia do falecimento do meu querido primo em Belo Horizonte. Ainda consegui chegar a tempo para o sepultamento e vê-lo sereno, liberto do sofrimento que o fustigou nos últimos tempos. Antonio Sérgio Carvalho Pimentel, ou simplesmente Sérgio, deixou para todos os que o conheceram e tiveram o privilégio da sua convivência e amizade um exemplo de superação, de conquistas, de realizações e, principalmente, de um grande amor e dedicação à bela família que construiu.


quinta-feira, 2 de março de 2017

HELENA DE SIQUEIRA MEGALE


        Em plena efervescência da segunda guerra, Natal teve uma importância decisiva na ação e abastecimento das tropas aliadas, pois foi na linda cidade praiana nordestina  que os norte-americanos construiram o chamado Trampolim da Vitória, ou seja,  a base aérea de onde decolavam diariamente centenas  de aviões.  Enquanto jovens militares vindos da grande nação do norte, em seus dias de folga,  transitavam pelas ruas e praias da aprazível capital potiguar, outros tantos militares brasileiros também lá estavam vindos de vários recantos desse nosso imenso país. E entre eles pelos menos um de Ouro Fino, um jovem soldado de nome Décio Lázaro Megale, muito mais conhecido pelo apelido familiar de Lazito.
      Bem, para encurtar a conversa, o importante é que num belo dia um Cupido de plantão resolveu flexar, ou melhor, aproximar o soldado ouro-finense de Helena uma linda jovem potiguar, plena de  encantos,  sonhos e alegrias próprias da juventude. E não deu outra, amor à primeira, à segunda e a todas às vistas subseqüentes. Vale ressaltar que o jovem Lazito com sua pinta de galã fazia o maior sucesso com as morenas praianas daquela plaga nordestina. No entanto, seu amor já pertencia à bela Helena e terminada a guerra, já engajado no Exército, não é que o jovem soldado teve que deixar a aprazível Natal em seguimento à  carreira que escolhera, eis que transferido pra outro Rio Grande, mas  bem mais longe, pois vizinho do Uruguai e  Argentina, o do Sul.
       As grandes distâncias nunca foram obstáculos intransponíveis pra quem ama e, embora naquele tempo ninguém dedilhasse os zap-zaps em suas comunicações, havia, no entanto,  as cartas, as “Love Letters” as românticas cartas de amor, algumas até perfumadas, que davam o toque nas saudades, plenas de juras de amor eterno. E foi assim que se deu a continuidade do namoro entre Helela e Lazito, até que a imensa distância entre os dois Rio Grandes foi encurtada pela metade, com a mudança da bela Helena para outro Rio, o de Janeiro onde, aliás, já residia um de seus irmãos , o jornalista e poeta Homero Homem de Siqueira Cavalcanti, que se tornaria um dos grandes escritores brasileiros.  A partir das plagas cariocas, não demoraria muito para que a jovem Helena acompanhasse a trajetória de vida de seu amor, evidentemente amparada pela imprescindível aliança em seu dedo anelar da mão esquerda e outra invisível em seu coração.
       Daí a estória de vida desse casal foi se desenvolvendo, ele dividido entre o trabalho próprio dos militares e o amor da mulher que amava e ela, rainha do lar, ia tecendo com maestria os afazeres da vida doméstica. E a felicidade da família foi se completando com a maternidade e os filhos foram chegando, primeiro o Décio, depois o Múcio, a seguir o Hélio, depois o Telmo e, finalmente, o Artur. Aliás, retiro o finalmente, pois a bela Helena não estava completamente satisfeita, pois ainda faltava uma tão sonhada menina para completar a família que somente no sexto parto chegaria ao nosso vale de lágrimas e sorrisos, a caçulinha Larissa. E a família formada a partir do amor de um soldado, no transcorrer dos tempos foi dando frutos e mais frutos, filhos e netos formados, bem sucedidos e mais recentemente , a fase dos bisnetos.
             O Capitão Lazito, assim passou a ser conhecido por todos, ao passar para a reserva lá pelos anos setenta, resolve mudar em termos definitivo para sua terra natal. E em Ouro Fino, ao lado da mulher amada viveu seus derradeiros tempos.  E foi também nesse pedaço do Sul de Minas, que Helena Megale passou a ser uma das pessoas mais admiradas, justamente pelo seu espírito participativo e alegre. Em sua longa vida, só cultivou amizades. Procurou incentivar vários segmentos culturais, tais como a Seresta Luiz Rodrigues e, claro, uma de suas marcas registradas, o Carnaval. 
        Helena foi uma pessoa  que transmitia otimismo e alegria.  Evidente que também tinha seus momentos de tristeza, de saudade de tempos vividos em companhia de quem tanto amou, mas eram tristezas efêmeras que guardava para si, ao contrário das alegrias, que eram constantes e marcavam sua presença.
           O Carnaval ouro-finense deve muito a ela, pois durante anos foi uma de suas grandes incentivadoras. O bloco “Carnaval de Sempre”, com sua bandinha, suas fantasias, sem dúvida, tinha em Helena sua grande líder. E foi justamente quase nos dias dedicados aos festejos de Momo que fechou os olhos para sempre.
           Todos nós somos personagens de um imenso teatro que é este “mundo, vasto mundo” como diria o poeta. Os protagonistas entram e saem de cena, mas alguns se incorporam à memória coletiva pela qualidade de sua representação e serão sempre lembrados. Assim será com Helena, a nordestina mais ouro-finense que esse recanto do Sul de Minas já viu. E aqui, neste finzinho de coluna fica uma sugestão às autoridades municipais de Ouro Fino. Homenageá-la com o seu bonito  nome “Helena de Siqueira Megale” em um de nossos logradouros públicos.  

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A CRISE CARCERÁRIA

        De repente mais uma crise surge em nosso país e, sem dúvida, põe em cheque todo o nosso ineficiente sistema penitenciário, se é que se pode chamar essa profusão de cadeias inadequadas de sistema. Os governos estaduais,atônitos ante o caldal de violência em seus cárceres, apelam para o Governo Federal e este , por sua vez, considera que a solução do momento seria apelar para o Exército, pois, segundo expressão usada pelo nosso Presidente, sua presença atemorizaria os presos amotinados.
      De 1991 a 1995, como representante de minha instituição na época, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, fui membro do Conselho Penitenciário e conheci de perto a triste realidade das unidades prisionais do referido estado que, diga-se, não mudou muito com o passar do tempo, ou talvez, tenha mudado para pior em face do crescimento vertiginoso da população carcerária. Gostaria de esclarecer que, em razão da função que exercia no mencionado conselho, visitei a maioria das cadeias do Estado do Rio de Janeiro, procurando inteirar-me dos problemas dessa área, assim como, estudar e sugerir procedimentos e soluções visando equacioná-los em termos aceitáveis.
      Agora, remexendo em antigos guardados, encontrei um recorte do jornal " O Povo", do Rio de Janeiro, edição de 9 de setembro de 1991, que estampava uma longa entrevista que eu dei, na qualidade de Defensor Público da área criminal e membro do Conselho Penitenciário. Hoje, releio aquela página esmaecida por tantos anos passados e chego a triste conclusão de que estamos colhendo os frutos podres de um descaso, de uma irresponsabilidade que nos coloca, sociedade e governos, tão ou mais culpados do que os bandidos que se declaram em guerra. O principal tema da entrevista foi justamente o problema carcerário e agora, tanto tempo passados relendo-a vejo que os conceitos emitidos continuam atuais e se algumas sugestões ali inseridas fossem levadas em consideração , certamente, não teríamos um panorama tão trágico como o que assistimos na atualidade.
        Na matéria jornalística sugeri que o estado substituisse os cadeiões ingovernáveis , por presídios menores que absorvessem uma pequena população carcerária e todos eles voltados para determinadas atividades industriais , agrícolas ou de serviços. Seriam empresas públicas ou até mesmo particulares administradas por entidades privadas, mas todas voltadas para uma determinada atividade industrial ou agrícola., gerenciadas de forma a minimizar os custos de suas manutenções. Evidentemente, seriam estabelecimentos prisionais onde, de fato, o preso tivesse o direito de trabalhar , de ganhar pelo fruto de seu trabalho, de estudar, de aprender uma profissão...."
       A referida matéria, cujo título , "Construção de presídios menores vai atenuar o drama carcerário", já resumia a temática da entrevista e, de fato, o panorama atual, demonstra que os governos, de modo geral, negligenciaram e continuam a negligenciar em face de um problema de tamanha relevância. Vale registrar ainda que grande parcela da sociedade também influencia para que nada se faça, pois, traumatizada com os índices crescentes de violência, não exige dos governantes uma política de humanização e transformação das cadeias, na verdade, a única forma de diminuir os índices de reincidência em nosso país , talvez, os mais elevados do mundo
     Construir cadeias apenas levando em conta o aspecto segurança, sem a preocupação de implementar uma política de transformação do homem, não protege a sociedade. Em todo Brasil, diariamente, centenas de pessoas ingressam nas cadeias, mas, em contrapartida, outras centenas também saem para a convivência livre. Se os que saem apenas ficaram privados da liberdade e o pior, em condições desumanas; se não tiveram um acompanhamento religioso, se não estudaram, se não aprenderam uma profissão, se a escola que frequentaram foi a do crime, título que se poderia dar a muitas de nossas cadeias, essa rotatividade mostra-se perversa e geradora de intranqulidade para toda a sociedade.
       A cadeia somente exerceria a função de proteger a sociedade se a maioria dos que a deixassem, de fato, estivessem em condições de retornar à sociedade livre como cidadãos de bem. Mas, salta aos olhos que isso não acontece, pois a maioria dos que a deixam volta a delinqüir e até com maior periculosidade. A solução mais sensata, desde que haja vontade política, seria a humanização dos métodos carcerários com vistas à recuperação do criminoso, como, aliás, encontra-se preconizada em nossa Lei de Execução Penal, uma das mais avançadas do Mundo, mas longe de ser implementada em toda sua plenitude, por descaso e ausência de vontade política.
        Há também algumas luzes no fim do túnel, embora bruxuleando ainda tênue, e uma delas corresponde aos métodos preconizados pelas APACS, associações privadas de caráter religioso que gerenciam algumas cadeias em total respeito às diretrizes da Lei de Execução Penal. Os resultados mostram-se dos mais satisfatórios, quando comparados com os existentes nas cadeias administradas pelos governos. A prática e as estatísticas vêm demonstrando que nas cadeias onde o método APAC é aplicado, os presos trabalham, estudam, as evasões e os índices de reincidências mostram-se insignificantes, não existem facções criminosas e o custo de sua manutenção é muito menor do que os das chamadas cadeias tradicionais.
           Há em outros países, exemplos e métodos, que podem ser implementados no Brasil, o que falta é uma conscientização maior de nossa sociedade para o problema e , repita-se, vontade política para resolvê-lo. Não é o nosso glorioso Exército que irá resolver problemas tão complexos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

MINI-CONTOS

A VAIA 
A moça de aspecto lamentável fazia gestos indicativos de que ia saltar. Nas adjacências do edifício a multidão extasiada acompanhava o inusitado espetáculo. Olhares aflitos fixavam o esquálido corpo cujos gestos refletiam a angústia e o desespero de alguém no limiar de sua derradeira opção. De repente, uma voz sobressai no murmúrio da multidão: “Pula” e logo é seguida por um coro uníssono e cadenciado: “Pula”, “Pula”, “Pula. A moça estende os braços e pernas na posição de mergulho. Cala-se o coro. Um silêncio acompanha a expectativa dos olhares fixos e tensos. A moça desfaz a posição extrema, acena para o povo e entra pela janela. A vaia foi estrondosa. 
  
  ATRÁS DA BOLA Dirigia com tranqüilidade pela rua estreita. De repente uma bola surge a alguns metros à frente do carro. “Atrás da bola sempre vem uma criança” pensou e pisou no freio. “Perdeu” foi o que ouviu de um robusto “di menor” que empunhava um tresoitão apontado pra sua cabeça.

  O RETORNO Todas as atenções no bar Cabaça Grande, situado na pequena cidade de Morubixaba estavam centradas em sua simpática figura. Saíra humilde e paupérrimo há alguns anos e agora retornava rico, generoso, muito falante ao relatar suas aventuras nos Estados Unidos. Segundo suas narrações, depois de percorrer várias regiões na América do Norte, trabalhando duro nas mais variadas e humildes profissões, finalmente enriquecera no frígido Alaska, tornando-se um dos grandes empresários no ramo da pesca. Sua mesa, onde não cabia mais nenhuma garrafa de cerveja, sorvida pelos circunstantes à sua custa, todos antigos companheiros de tempos miseráveis. Embasbacados, ouviam seus relatos, suas lutas, superações e dificuldades visando um lugar ao sol no grande país do norte; seu início como simples empregado na indústria da pesca, sua ascensão gradativa até chegar ao ponto em que chegou. Suas narrativa gloriosa, no entanto, não mais que de repente, como dizia o poeta, foi interrompida por um acontecimento que o fez gelar, como se estivesse no Alaska. Uma folha de papel com o seu retrato foi atirada bem na sua frente por um jovem “nerd” que chegara repentinamente ao local. Só que acima da fotografia havia uma notícia, já previamente traduzida do inglês que dizia : “Identificado brasileiro autor de roubo milionário”. Arrasado, escafedeu-se do bar e da cidade o mais rápido possível, maldizendo a existência da Internet.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

RETROCESSO E TORTURA, NUNCA MAIS


      Um dos principais princípios do estado democrático repousa na liberdade de opinião. Assim, cada um de nós temos a liberdade e expressar o que pensamos, sejam eles de caráter político, religioso ou lá o que for, pois se assim não fosse não viveríamos numa democracia. Nos dias atuais, as redes sociais transformaram-se  na ferramenta mais ampla e democrática para a exposição e circulação  de ideias.  Na verdade elas funcionam  de forma bem mais ampla  e democrática do que a própria imprensa tradicional, pois sua amplitude está nos dedos de qualquer pessoa ao digitar sua opinião e sua liberdade de expressão não está condicionada à linha de opinião dos órgãos da imprensa, principalmente da chamada grande imprensa.
    O jornal em que escrevo, a Gazeta de Ouro Fino, um pequeno e centenário jornal de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, graças ao espírito democrático de seus dirigentes, respeita a liberdade de opinião de seus redatores e colaboradores. É um jornal coerente com a liberdade de expressão dos dias em que vivemos, mas é uma exceção se fizermos uma comparação com os grandes veículos da imprensa falada, televisada ou impressa, em que seus redatores ficam condicionados a se manifestarem apenas de acordo com o pensamento político de seus dirigentes. 
   De qualquer forma, mesmo com essas ressalvas, não se pode negar  que no Brasil há liberdade de imprensa, acrescida  da mais ampla liberdade de opinião através da Internet.  No entanto, embora haja uma tradição libertária em relação à imprensa que vem desde os tempos do império, nem sempre foi assim, pois num passado recente e ainda na memória  de muita gente, ela foi sufocada através de atos discricionários, tais como,  a presença diária de censores nas redações, proibição de veicular determinadas notícias e até prisões, torturas e morte de jornalistas, a exemplo do ocorrido com jornalista Vladimir Herzog. Naquela época ainda não existia a Internet e os acontecimentos que não se podiam publicar eram varridos para debaixo do tapete a espera de que ventos mais favoráveis à democracia soprassem e removessem o lixo autoritário, o que de fato ocorreu.  Não se pode eternizar um estado totalitário, pois o desejo do homem em busca da liberdade em todos os seus matizes, inclusive o de expressão, representa um aspiração natural, intrínseca ao ser humano.
     Qualquer regime ditatorial, sejam eles de esquerda ou de direita, e mesmo de inspiração religiosa ou de castas como se vê em países do Oriente Médio, mostra-se ofensivo à dignidade do ser humano, ainda que no seu nascedouro representem uma aspiração legítima do povo.  No Brasil, inconteste que o golpe militar  deflagrado em 31 de março de 1964, golpe que afastou o presidente João Goulart, recebeu grande apoio popular, em especial por parte considerável da classe média, receosa com os rumos esquerdistas do então governo.  No entanto, o apoio inicial foi diminuindo, à medida que o governo não mais disfarçava sua face autoritária, até chegar à ditadura escancarada do início dos anos setenta, em que a repressão aos que ousavam afrontá-la chegou às raias do absurdo inaceitável, a exemplo da Casa da Morte de Petrópolis, presídio clandestino,  em que dezenas de pessoas foram torturadas e executadas.
     Recentemente, um oficial do exército que assumiu pública e corajosamente sua condição de torturador, afirmou perante a Comissão da Verdade que na referida Casa da Morte, dezenas de pessoas foram mortas, tiveram seus dedos cortados e dentes arrancados para impedir a identificação, suas vísceras retiradas para que  o corpo não boiasse  e atirados num rio que passava nas proximidades da mencionada casa.  Afirmou ainda que recebia ordens de seus superiores e que eles, os generais,  tinham pleno conhecimento do que ocorria na referida casa de suplício. 
     Faço essas considerações  num momento em que antevejo em certas mensagens que circulam nas redes sociais, não apenas um certo saudosismo em relação a essa época, mas também um desejo de  retornar aos tempos ditatoriais. Essas pessoas, a maioria de  jovens que  nem viveram os tempos do autoritarismo militar, repassam mensagens de loas à ditadura e críticas à democracia,  justamente aproveitando a liberdade de expressão que hoje usufruímos. Criticam a democracia, mas a usam como veículo de suas criticas.
        Não descarto a certeza de que viver num regime democrático tem um preço, talvez bem maior do que viver num regime ditatorial. No entanto o direito de criticar, de denunciar, de escolher seus representantes através do voto, de não ser punido, torturado ou morto por expressar suas convicções, ou seja, o direito de sentir-se livre, a meu ver, representa uma das maiores conquistas  do ser humano. Retrocesso e tortura, nunca mais.         

POMPÉIA , A PONTE AÉREA DO AMÉRICA


      José Valentim da Silva, mineiro de Itajubá, em seus tempos de escola pública adorava desenhar personagens dos gibis de antigamente, principalmente o marinheiro Popeye. Daí, por gozação, seus colegas passaram a chamá-lo de Pompéia e o apelido pegou tanto que nunca mais o abandonou. Ainda criança, alto e esguio, especializou-se em saltos acrobáticos, o que lhe rendeu muitas exibições em circos no Sul de Minas. Além do circo, outra de suas paixões era o futebol e bem cedo já fazia seus gols na posição de centro-avante no São Paulo, equipe da segunda divisão de sua cidade.
      Em certa ocasião, o goleiro de seu time adoeceu e o centro-avante Pompéia foi escalado para substituí-lo. Embora nunca houvesse jogado nessa posição, saiu-se maravilhosamente, graças à  elasticidade adquirida  em seus tempos de artista de circo. E não deu outra, daí em diante o centro avante trocou de posição, tornando-se mais tarde um dos grandes ídolos do futebol brasileiro. Contratado pelo Bonsucesso do Rio de Janeiro, sua atuação logo chamou a atenção de um grande clube carioca na época, o América, para onde se transferiu e  permaneceu por mais de dez anos.  
    Pompéia tinha uma característica que o destacava dos outros goleiros. Ele não apenas defendia, mas enfeitava tanto suas defesas com saltos incríveis que suas atuações aproximavam-se de um verdadeiro espetáculo circense. Bolas fáceis que os outros goleiros apenas encaixavam, transformavam-se em demonstrações acrobáticas, para delírio dos torcedores e dos locutores esportivos que o apelidavam de Constellation, famosa aeronave da época, Ponte Aérea e outras designações  relativas ao seu modo de atuar.
    Nelson Rodrigues, teatrólogo e escritor que dispensa adjetivos, torcedor fanático do Fluminense, escrevia excelentes crônicas sobre futebol e numa delas, assim caracteriza Pompéia: É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais acrobático do mundo. Nada tem de simples: − ele complica tudo. Em primeiro lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram geniais.
  Sim, de fato, Pompéia era um artista de circo e transformava suas defesas em obras de arte. A área era seu picadeiro e ao complicar uma defesa aparentemente fácil com saltos ornamentais, sua intenção era brindar o público. Era o malabarista, o acrobata e também o palhaço. E os torcedores deliravam, aplaudiam e até perdoavam quando alguma coisa não dava certo. Sem a menor dúvida, foi o goleiro do América mais amado pela torcida  e até hoje é lembrado com saudade pelos mais velhos, como eu, que tiveram o privilégio de vê-lo atuar.
   Teve um final triste, tanto nas quatro linhas do gramado, quanto na vida. No final de carreira, depois de ter atuado pelo Porto, de Portugal, transferiu-se para um time da Venezuela, o Desportivo Português. E foi exatamente nesta equipe, num jogo amistoso contra o Real Madrid da Espanha que Pompéia encerrou bruscamente sua carreira de jogador.  Num chute fortíssimo do genial Di Stefano, a bola chocou-se com seu rosto.  Pompéia desmaiou e ao acordar no hospital estava completamente cego do olho esquerdo.
  Desiludido, retornou ao Brasil, tornou-se alcoólatra, morrendo abandonado e  na mais completa miséria em 1996, aos 61 anos de idade.
    Pompéia chegou a integrar a seleção brasileira em alguns jogos, foi campeão pelo América em 1960, campeonato histórico,  pois o primeiro a ser realizado no então recém Estado das Guanabara.
    Em seu excelente e divertido livro “Tijucamérica”, o jornalista José Trajano menciona uma frase atribuída a Pompéia em uma entrevista  gravada um pouco antes de morrer,  para o documentário “Futebol” , de João Moreira Salles e Arthur Fontes, ou seja:
  “O goleiro é quem mais gosta da bola. Todo mundo chuta a bola, só o goleiro abraça.”