sábado, 8 de março de 2008

UM FENÔMENO CHAMADO ZIZINHO

No trajeto diário para o colégio, eu passava em frente ao monumental estádio ainda em construção. O local era meu velho conhecido, pois alguns anos atrás minha antiga casa ficava a poucos metros de uma pequena arquibancada em ruínas que já abrigara os aficionados das corridas de cavalo. Era o local onde funcionara o antigo Derby Club que se preparava para abrigar o maior estádio do mundo, o Maracanã. O ano era o de 1949 e eu, um garoto de catorze anos, subia pela primeira vez a rampa do grande estádio em construção. O verde do gramado resplandecia e sua forma arredondada ficou eternamente gravada em minha memória. Uma fotografia imaginária, que eu constantemente resgato dos porões de minhas lembranças..
Depois, o estádio deixou de ser novidade e progressivamente entrou para minha rotina de torcedor. O velho São Januário, que antes parecia imenso ao meu olhar adolescente, encolheu envergonhado ante a imensidão de seu novo rival. E naquele gramado redondo, nos primeiros anos de sua trajetória de maior do mundo, brilhava a estrela de um grande artista da bola envergando a camisa rubro-negra. O maior craque daquela época, o ídolo de todos os amantes do futebol arte e até de Pelé, que se espelhou em seu primoroso futebol. Seu nome de batismo e registro era Tomaz Soares da Silva, mas no futebol, um fenômeno chamado Zizinho.
Era um mulato de estatura mediana, cabelos pretos anelados e brilhosos, fluente no falar, ágil em seus dribles milimétricos, preciso ao passar a bola e, como se não bastasse, um artilheiro com grande pontaria. Inteligente, possuía uma visão de jogo incrível e constantemente, através de uma precisão inimaginável ao passar a bola, deixava seus companheiros na cara do gol. Eu sempre fui um amante do futebol e, ainda não descobri o porquê, torcedor do América, um mistério indecifrável. Além de acompanhar meu time nos principais jogos, ia constantemente ao Maracanã, especialmente para ver a atuação de alguns jogadores de grande qualidade técnica, entre os quais reinava o futebol arte de Zizinho.
Em relação aos grandes craques que atuaram num passado um pouco mais recente, tais como Pelé, Garrincha, Zico, Maradona, Sócrates , entre outros, é muito fácil fazer-se uma avaliação de suas qualidades e até mesmo compará-los com outros jogadores, pois há inúmeros registros em filmagens. No entanto, já não acontece o mesmo com aqueles que pertenceram a gerações mais distantes, pois nada, ou quase nada sobrou em imagens que refletissem a grandeza do futebol que praticaram. Assim, as jogadas geniais de Zizinho, bem como as arrancadas fulminantes em direção ao gol do grande Ademir Menezes, ficaram arquivadas apenas nas lembranças dos mais velhos, tal qual a primeira impressão do gramado verde do Maracanã ficou em minha memória. De vez em quanto, como bom saudosista, vou ao arquivo de minhas antigas recordações para retornar ao Maracanã daqueles tempos e, misturando-me aos cento e tantos mil torcedores , aplaudir em meus devaneios as incríveis jogadas de Zizinho. Mas que saudade!

quinta-feira, 6 de março de 2008

MEU TIO JOÃO LÚCIO

      Quero ressaltar dois aspectos ligados a Belo Horizonte de minha infância . O primeiro prende-se a viagem que , pelo menos , duas vezes ao ano fazíamos à capital mineira. Morávamos no Rio de Janeiro e , principalmente nos períodos de férias escolares , lá íamos nós , mamãe e a filharada enfrentar a longa viagem de trem. Não sei porque , mas eu era uma criança que tinha uma atração muito especial pelas trens que desbravavam o Brasil e o mundo , sendo o principal meio de transporte na primeira metade do século passado. As grandes locomotivas , sejam elas as antigas “Maria Fumaça”, ou já no final da década de quarenta , as imponentes “General Electric”, movidas alternativamente a eletricidade ou óleo diesel , mexiam com minha sensibilidade de menino curioso . Em contraste com alguns membros de minha família, que detestavam a viagem, principalmente minha irmã Carmen Sylvia que enjoava o tempo inteiro, eu curtia prazerosamente todo o seu transcurso. Conhecia todas as paradas do trajeto , adorava a hora de ir ao restaurante, puxava conversa com outros passageiros, apreciava até a voz monótona e cadenciada do chefe do trem , quando percorria todos os vagões para anunciar a estação que se avizinhava : “Juiiiz de Fooora”, “Barrrbacena”.
      O outro , era a casa e a presença marcante em meus tempos de criança de meu tio João Lúcio . Um dos escritores mineiros mais conhecidos daquela época , casado com uma das irmãs de minha avó materna , a minha sempre querida e nunca esquecida Tia Luíza , o ouro-finense João Lúcio Brandão tinha uma característica pessoal que o tornava extremamente querido por mim . Ele brincava, conversava, mostrava gravuras, lia textos infantis, enfim dava atenção a todas as crianças que freqüentavam sua casa.
      Morava numa residência imponente no bairro Funcionários, ainda hoje existente, embora bastante modificada em sua estrutura e aspecto original . Era uma casa de dois pavimentos , centrada em um grande terreno , pois se alastrava por mais da metade do quarteirão que a circundavam. Em seu quintal havia espaço para horta , galinheiro, um caramanchão coberto com parreira e inúmeras árvores frutíferas. Recordo-me com clareza da parte interna da casa , de todos os seus cômodos e até da disposição de seus móveis.
O lugar que eu mais gostava e comparecia assiduamente era a grande sala de frente que dava para a Avenida Brasil , ocupada pelo escritório e biblioteca . Seus móveis eram em estilo colonial , envernizados em coloração escura. Suas estantes eram guarnecidas por grande quantidade de livros encadernados uniformemente, havia ainda várias peças decorativas em que pontificavam imitações de caveiras . Foi nesse local, maravilhoso para minha sensibilidade infantil, que meu Tio João Lúcio , pacientemente, mostrava-me gravuras, pedia que eu lesse trechos de seus livros infantis, contava-me histórias e procurava interessar-me pelo mundo das letras.
Bem mais tarde , já professor de Português , li seus romances e pude aquilatar o grande valor literário desse escritor , sem dúvida, uma das maiores expressões de nossa literatura regionalista , infelizmente esquecido nos dias atuais.
Eu tinha uns treze ou quatorze anos quando vi meu tio pela última vez. Foi no Rio de Janeiro , num quarto da Casa de Saúde São José , onde se recuperava de uma cirurgia no pulmão feita há alguns dias atrás, tentativa frustrada de estancar uma doença insidiosa . Lembro-me perfeitamente até de sua voz, quando me chamou para junto de sua cama e disse pausadamente : “Dessa vez estão me dando uma surra . ”