quinta-feira, 29 de outubro de 2009

VILA ISABEL

       Noel Rosa, uma das maiores expressões poéticas da nossa música popular, amava e exaltava em suas composições o bairro carioca onde nasceu e foi criado, Vila Isabel. De fato, desde os tempos de Noel o bairro era um dos mais tranquilos da cidade maravilhosa, onde a população do asfalto vivia em plena harmonia com os habitantes do morro. Tanto era verdade que o poeta da Vila dizia em uma de suas mais conhecidas obras: “ Lá em Vila Isabel quem é bacharel não tem medo de bamba".
      Se Deus ao fazer o mundo privilegiou um local onde a natureza oferecesse o que há de mais belo, esse local é o Rio de Janeiro. No entanto, o Diabo, sempre procurando macular as obras divinas, também fez das suas e resolveu introduzir na cidade uma horda de distribuidores da hóstia de Satanás, ou seja, as drogas e seus componentes trágicos, como as guerras de facções, os assaltos, a marginalidade.
       O bairro de Noel Rosa, local até então prazeroso para se viver, bairro agradável, bem localizado e próximo ao centro, bairro de casas antigas, bairro boêmio e orgulho de seus habitantes, recentemente, passou a ocupar o noticiário como o centro de uma guerra entre facções criminosas em que até um helicóptero da polícia é derrubado por armas de alto calibre.
        Ainda bem que Noel há muito não está entre nós para ver a transformação que as forças do mal fizeram em seu recanto poético. Ele já não teria argumentos para defender seu bairro como o fez ao dizer que “a Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz samba também.” Atualmente, o que a Vila está mostrando não é samba, como mostrava também em passado mais recente o nosso querido Martinho, mas uma série de acontecimentos que envergonha a todos que amam não apenas aquele bairro , mas a própria Cidade Maravilhosa.
       O Rio de Janeiro é a capital cultural do Brasil e seu cartão postal. Tudo o que acontece no Rio, seja para o bem ou para o mal, repercute muito mais do que em qualquer outra cidade. Recentemente o povo brasileiro saiu às ruas para comemorar a mais importante vitória esportiva que uma cidade pode ter, que é sediar os Jogos Olímpicos. Só espero que os lamentáveis acontecimentos sirvam de advertência às autoridades, pois para realizar um evento da grandeza de uma Olimpíada não basta construir estádios e alojamentos, é imprescindível que a guerra contra a marginalidade também esteja ganha.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

DANNY HOFFEMBERG – UM PEQUENO HERÓI

      Danniel Hoffemberg, ou Danny, como é chamado por todos, sejam familiares, vizinhos ou colegas de escola, é um menino de dez anos que reside em Denver, capital do Estado do Colorado nos Estados Unidos. Brasileirinho por parte de mãe e norte-americano pelo lado paterno e por nascimento, Dany é uma criança alegre, esperta, muito inteligente, destacando-se por seu conhecimento e criatividade em vários projetos e matérias na escola onde estuda. Adora praticar esportes, principalmente o nosso futebol, que é também chamado de “soccer” nas plagas da América do Norte. .
      Seu pai, Edward, é um médico norte-americano que, ao participar de um congresso no Rio de Janeiro, apaixonou-se por Analice, também médica, e poucos meses depois estavam casados e a doce morena carioca mudava-se para o grande país do norte. O nascimento de Dany coroou a felicidade do casal, mas, logo adveio um contratempo inesperado. Danny nascera com uma grande deficiência cardíaca e apenas um transplante de coração, assim mesmo com a máxima urgência, poderia evitar sua morte tão prematura.
      A espera de que surgisse um doador fora das mais angustiantes, mas, o pequeno Danny foi salvo pelo gongo, pois quando seu tempo se esgotava, eis que surge o coração salvador e aos três meses o nosso pequeno herói submeteu-se ao transplante cardíaco, na verdade, uma cirurgia complicada principalmente porque se tratava de um bebê. Mas Dany não só sobreviveu, como superou os problemas de rejeição e foi crescendo e surpreendendo pela sua privilegiada inteligência e vontade de viver.
      No fim do ano passado, já com dez anos, os problemas de rejeição do órgão transplantado puseram novamente em sério risco sua vida. Cirurgias foram feitas, “stents” foram implantados objetivando melhorar sua circulação já em colapso, e novamente o pequeno Danny entrava na angustiante fila dos que aguardam pela doação de órgão, com a sua breve vida por um fio. Rezas e imensas preocupações de seus pais, amigos e parentes, inclusive nós, seus primos aqui de Ouro Fino, torcendo para que um novo coração salvasse a vida do nosso pequeno Danny. Em fevereiro último, graças a Deus, surgiu um órgão compatível e Dany foi submetido a um reimplante de coração com sucesso e atualmente está praticamente recuperado.
Retornando à vida normal, resolveu dedicar-se a um trabalho de pesquisa sobre doação de órgãos, entrevistando mais de cem pessoas, objetivando, principalmente, criar uma consciência mais receptiva a doação de órgãos. A pesquisa do pequeno Danny despertou grande interesse da mídia norte-americana e ele está se tornando famoso, tendo sido entrevistado por um importante canal de televisão do Colorado, sendo também notícia em jornais locais.
        No Brasil o problema das filas de espera por transplantes de órgãos, creio que é ainda mais angustiante do que nos Estados Unidos. O exemplo de Danny, uma criança que teve a sorte de ter uma segunda chance de continuar vivendo, e que foi à luta procurando sensibilizar um maior número de pessoas a se tornarem doadores de órgãos, deve ser seguido e divulgado ao máximo, para que a esperança da um número maior de pessoas que necessitam de um transplante não morra numa angustiante fila de espera.

terça-feira, 3 de março de 2009

UMA TRAGÉDIA FAMILIAR

       Creio que todas as pessoas ligadas por laços de parentesco possuem seus segredos, seus mistérios, seus acontecimentos alegres ou tristes que permanecem através dos anos cristalizados numa espécie de memória coletiva familiar. Vou relatar um desses acontecimentos, aliás, dos mais trágicos, que envolveu alguns de meus ascendentes e familiares e que, embora tenha ocorrido há quase um século, vez por outra é resgatado nos escaninhos de nossa memória.
       Era um dia do mês de dezembro de 1912 e o Doutor Antonio Pimentel Júnior, meu avô, estava há poucos meses à frente da prefeitura da cidade de Lambari, naqueles tempos remotos denominada Águas Virtuosas de Lambari. Fora nomeado por Júlio Bueno Brandão, então Governador de Minas, tio de sua esposa, minha saudosa avó Maria Ignácia.
       Francisco Ribeiro da Fonseca, meu bisavô, um dos cidadãos mais eminentes de Ouro Fino na época, sogro de meu avô, juntamente com sua esposa Júlia, minha bisavó, foi passar uns tempos na referida cidade, procurando a cura em suas águas virtuosas para uma estranha e renitente enfermidade. No entanto, ao revés da cura, seu estado de saúde complicava-se dia-a-dia e, na data e hora do acontecimento trágico que vou relatar, meu bisavô passava mal e um médico fora chamado às pressas para atendê-lo.
      De repente, as pessoas que se encontravam no quarto do enfermo ouviram um estrondo dentro da casa, semelhante a um disparo de arma de fogo e correram em direção à sala. O quadro que se apresentou foi terrível. José, uma criança de apenas oito anos, filho de meus avós, jazia com a cabeça caída sobre a mesa, com as folhas do caderno em que desenhava salpicada de vermelho e de seu ouvido, que parecia uma flor, segundo o relato de sua mãe, minha avó Maria Ignácia, esguichava grande quantidade de sangue. Junto a José, um outro menino de apenas dez anos, com uma das mãos tentava aplacar o líquido rubro e com a outra empunhava um revólver. O médico que estava na casa e que chegou imediatamente, abraçou minha avó, apenas para dizer que nada mais podia ser feito.
      Meu bisavô, Francisco Ribeiro da Fonseca, morreu alguns dias depois do acontecimento. O menino que fizera o disparo, um vizinho e filho do delegado de polícia, alegou que apenas queria brincar e que pensava que a arma que encontrara embaixo de um colchão num dos quartos da casa estava descarregada. Minha avó, após este acontecimento, nunca mais tirou o luto e envelheceu aos trinta e sete anos. E o pequeno José, que morreu sem saber o porquê, foi enterrado em Lambari e, posteriormente, seus restos mortais junto com os de seu avô Francisco Ribeiro da Fonseca foram trasladados para o cemitério de Ouro Fino.
      Bem, leitores, ao narrar essa tragédia, aproveito também para formular a seguinte consideração: se não houvesse a tal arma em casa eu não estaria escrevendo sobre este tema e, sem dúvida, meu tio José teria tido uma vida, talvez longa e feliz, e minha querida e sempre lembrada avó também não teria envelhecido tão cedo.