quinta-feira, 7 de outubro de 2010

COMO NASCEU UM GRANDE CLUBE DE FUTEBOL

       No início do século passado, principalmente na segunda década, o futebol no Brasil deixava de engatinhar para dar seus primeiros passos. A hoje imensa capital de Minas Gerais, em 1911 ainda era uma pequena cidade com, aproximadamente 35.000 habitantes, apesar de ostentar ruas e avenidas largas, fruto de um planejamento bem sucedido feito há alguns anos atrás, assim como, a novidade dos bondes elétricos e suntuosos prédios públicos, que já davam à cidade a aparência de ser bem maior do que efetivamente era. A febre esportiva contagiante, que atingia os meninos e adolescentes do Brasil inteiro era o futebol, ainda um esporte considerado de elite. O elemento negro, hoje predominante em várias práticas esportivas, em especial no futebol, mostrava-se estranho ao “esporte bretão”, como se costumava denominar o esporte. Assim, grande parte dos clubes que surgiram no Brasil ainda no alvorecer do século XX foram organizados por meninos e adolescentes de classe média ou alta, praticantes do novo esporte. e os modelos de inspiração, geralmente, vinham do Rio de Janeiro ou São Paulo.
       Em 1911 o Governador de Minas, ou usando a nomenclatura da época, o Presidente de Minas Gerais era o ouro-finense Júlio Bueno Brandão, um político respeitado por seu espírito de liderança e, principalmente, por sua seriedade e honestidade no trato das coisas públicas. Sem dúvida, instigado por seus filhos e sobrinhos, ainda de calças curtas, todos praticantes entusiasmados do futebol, esporte que surgia célere e conquistava cada vez mais adeptos, resolve convidar o América Foot-ball Club do Rio de Janeiro para uma partida amistosa em Belo Horizonte. Foi a primeira vez que uma equipe carioca, na época uma das mais populares do Brasil, se deslocava até a emergente capital mineira para uma partida amistosa. E o jogo transcorreu numa tarde chuvosa de quinta-feira, exatamente no dia 16 de novembro de 1911, A equipe belorizontina que enfrentou os cariocas, o Yale Athletic Club, era formada por jovens estudantes e não fez feio. Perdia apenas por um a zero, quando, encerrado o primeiro tempo, o árbitro interrompeu o jogo em razão da tempestade que transformou o campo de jogo num verdadeiro lamaçal.        A viagem do América do Rio a Belo Horizonte, certamente, influenciou na escolha do nome de um dos mais tradicionais clubes de futebol do Brasil, o América mineiro, fundado em abril de 1912 por vários meninos praticantes do futebol e, entre eles, familiares do então governante de Minas, Júlio Bueno Brandão.
       Em seu livro de memórias, “Na Vivência de Meu Tempo”, Affonso Silviano Brandão, que foi o primeiro presidente do América, relata que a idéia de fundar um clube de futebol surgiu numa conversa de meninos, quase todos alunos do tradicional Colégio Arnaldo de Belo Horizonte. Ele, por ser torcedor do América carioca, sugeriu o mesmo nome, ou seja, América Foot-ball Club, porém, como houve outras sugestões, ou seja, Riachuelo, Paissandu e Guarani, resolveram que o nome seria escolhido por sorteio, o que de fato ocorreu e o fator sorte indicou o nome do América. Vale destacar que Affonso Silviano era sobrinho do então governante Júlio Bueno Brandão, bem como, entre os fundadores, havia um de seus filhos, Francisco Bueno Brandão e um outro sobrinho, José Megale, também nascidos em Ouro Fino e estudantes em Belo Horizonte. O interessante é que Affonso Silviano foi escolhido presidente por ser o mais velho entre os fundadores, e, no entanto, tinha apenas quatorze anos de idade.
      Assim, uma reunião de meninos, colegas de escola que, a primeira vista poderia parecer despretensiosa, daria origem a um dos grandes e tradicionais clubes de futebol de Minas Gerais e um dos poucos no Brasil que pode se orgulhar de ter sido dez vezes campeão em anos sucessivos, pois sagrou-se campeão mineiro nos anos compreendidos entre 1916 e 1925. Mas isto já uma outra história.

domingo, 12 de setembro de 2010

REMINISCÊNCIAS QUASE PERNAMBUCANAS

     Nada acontece por acaso. Hoje,tenho a convicção de que a Força Superior que guia nosso destino é quem decide os rumo de nossas vidas. Nós somos o rebanho e Ele o pastor. Assim, não foi por acaso que meu pai, Amaro Silvestre Pereira de Araujo, nordestino de boa cepa, cirurgião dentista dos melhores, um dia bateu os costados em Campinas. Na verdade, foi direcionado por Ele justamente para ser vizinho de meu avô materno, doutor Antonio Pimentel Junior, culto advogado, assistindo na bela e progressista Princesa do Oeste dos anos trinta. Foi lá que Deus semeou minha familia.
     De Campinas para Ouro Fino, terra natal da bela e meiga Zuleika, minha mãe, foi um pulo, mas salpicado de dificuldades financeiras para o jovem odontólogo. Chegou o primogênito, Luiz Antonio, e pouco tempo depois minha mãe já carregava no ventre este modesto escriba. Daí veio a idéia da mudança para Recife, cidade grande, melhores oportunidades profissionais, ajuda financeira de meu avô paterno, projetos que entusiasmaram meu pai, inclusive a possibilidade de seu segundo filho ser também pernambucano como ele. Mas, a bem da verdade, cumpre esclarecer que esse entusiasmo não foi compartilhado por minha mãe.
     Acostumada ao aconchego da proximidade familiar, principalmente de minha avó, Maria Ignácia, poucos meses após a chegada à bela capital nordestina, minha mãe já implorava pelo retorno, principalmente porque não queria ter filho longe do apoio maternal. Daí, minha provável naturalidade pernambucana começou a balançar, até que se desvaneceu totalmente, pois vencido pelos apelos de sua jovem esposa, meu pai decidiu pelo retorno. De fato, com a previsão do parto para novembro, no início de outubro de 1934, minha família retornava por mar com destino ao Rio de Janeiro, trampolim para Ouro Fino, cidade para onde meus avós maternos tinham se mudado.
     Naquele tempo, viajar não era um ato tão simples como na atualidade. Os deslocamentos entre o norte ou nordeste para o sul e vice-versa, eram feitos nos navios das companhias Navegação Cossteira e Loyde Brasileiro, e a viagem de Recife para o Rio de Janeiro era feita em cinco dias, pelo menos. Avião era um privilégio das pessoas corajosas e abastadas. Já do Rio para Ouro Fino havia o acréscimo de mais dois dias, nos maria-fumaças tão comuns naqueles tempos românticos.
      As agruras da viagem devem ter mexido bastante com o ventre de minha mãe e apressado o parto, pois mal chegamos em Ouro Fino, eu já me debatia no limiar dessa longa trajetória extra uterina em que me encontro até os dias atuais. E não houve tempo nem de chamar a parteira e meu pai, coitado, acostumado a extrair dentes, foi forçado pelas circunstâncias a extrair um pequenino ser do ventre de sua querida esposa.
E foi assim, por uma fração de alguns dias, que deixei de ser pernambucano. Mas Recife tornou-se uma referência em minha vida e, vez por outra, mato as saudades de minha quase terra natal.

terça-feira, 8 de junho de 2010

ÁGUAS VIRTUOSAS DE LAMBARI

     Recentemente estive com minha esposa na linda estância hidromineral de Lambari. Cidade pequena cercada de montanhas verdes que ainda ostenta resquícios de um passado de fausto representado, principalmente, pelo belo e imponente prédio que seria um cassino, edificado às margens do Lago Guanabara, construídos graças ao espírito incrivelmente empreendedor de seu primeiro prefeito, o engenheiro Américo Werneck. Nomeado em 1909 pelo então presidente de Minas Wenceslau Braz para governar o recém emancipado município de Águas Virtuosas, Werneck , que já fora prefeito de Belo Horizonte, ambicionava transformá-lo numa versão brasileira da então famosa estância hidromineral, Águas de Vick, localizada na França, recebendo do governo mineiro imenso suporte financeiro para o ousado empreendimento.
      Além do lago onde foi colocado até uma gôndola importada de Veneza, o lindo e imponente prédio onde Werneck planejava instalar um cassino foi construído com requintes e, evidentemente, gastos até então inimagináveis para uma pequena cidade do interior de Minas. Para se ter uma idéia da grandiosidade do empreendimento, basta esclarecer que todos os materiais de construção foram importados da Europa e da Ásia. Assim, a madeira era o famoso pinho de Riga, vindo da Rússia; as telhas eram francesas; os azulejos e peças sanitárias vieram de Portugal e Inglaterra e, até mesmo os tijolos, cimento pedras, pisos e forros provieram de vários países asiáticos.
      A inauguração do cassino, em 1912, correspondeu a uma festa das Mil e Uma Noite, com champanhe e vinhos franceses jorrando à vontade, bufê caríssimo, casacas, cartolas e vestidos longos circulando pelos salões ricamente ornamentados, graças à presença de centenas de ilustres convidados vindos, principalmente, do Rio de Janeiro, sem contar as do Presidente da República, Hermes da Fonseca e do Presidente de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão. Do lado de fora, a população interiorana da pequena cidade assistia embasbacada a movimentação inusitada. Américo Werneck, o anfitrião, circulava orgulhoso com sua criação, ainda mais quando os fogos de artifícios, a gôndola ricamente ornamentada e o belíssimo farol arrancavam gritos de admiração do público.
     Talvez o único convidado que não acompanhou a euforia reinante no ambiente foi o governador de Minas. Retornando a Belo Horizonte, o austero Júlio Bueno Brandão chamou ao palácio o advogado Antonio Pimentel Júnior e, segundo a memória familiar, visivelmente preocupado, teria dito as seguintes palavras.: “Vou ter que demitir o Werneck da Prefeitura de Águas Virtuosas, pois nesse ritmo ele não vai quebrar apenas seu município, mas Minas Gerais, e até mesmo o Brasil” . E de fato, demitiu Américo Werneck nomeando para seu lugar o Doutor Pimentel com a recomendação de economizar o máximo e enxugar as finanças do município.
     Em Lambari, eu e minha esposa, percorremos a pé as ruas do centro da cidade e ao lado direito de sua imponente igreja matriz, vejo a placa indicativa do nome de uma pequena rua de ladeira íngreme, “Rua Doutor Antonio Pimentel Júnior”. Aproveitei para tirar uma foto junto à placa, esclarecendo aos leitores que o homenageado com o nome da rua foi meu avô materno, o prefeito que substituiu Américo Werneck e que governou a cidade durante vários anos na segunda década do século passado. Meus contatos com ele distam há mais de sessenta anos, mas guardo nos escaninhos de minhas recordações, seu olhar de bondade, sua paciência com os netos e até mesmo resquícios de sua voz.
    Bem, para terminar essas digressões, o tal cassino nunca chegou a funcionar e embora tenha um repositório riquíssimo de águas minerais, o município de Águas Virtuosas nunca chegou a ser considerada uma Vick sul-americana, tendo mudado seu nome para Lambari, vocábulo que significa peixe pequeno, em 1930.
Américo Werneck, o homem que sonhou alto, deixou para a posteridade uma cidade belíssima, embora mal cuidada atualmente, e sua marca de visionário ousado. Mas o que seria do mundo sem a ousadia dos visionários?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AMIGO É COISA PRA SE GUARDAR. NUNCA SAI

    Em recente entrevista dada à Folha de São Paulo o cineasta português Manuel de Oliveira que já completou 101 anos de idade, afirmou que a grande frustração de quem atinge uma idade tão avançada é não ter mais amigos de longa data. De fato, durante a trajetória de nossa vida, vamos angariando e perdendo amigos e para aqueles privilegiados que conseguem atingir uma idade tão avançada em pleno gozo de suas faculdades, como é o caso de Manuel de Oliveira e Oscar Niemeyer, fica um imenso vazio de não ter mais com quem conversar sobre os tempos azuis da adolescência e juventude. E é tão bom recordar o passado com pessoas que conviveram conosco, que fizeram parte de nossa vida, que testemunharam acontecimentos marcantes agora tão longínquos.
     Não me considero um saudosista, mas gosto de resgatar dos porões da memória passagens de minha vida e, sem dúvida, com um sabor todo especial quando partilhamos essas passagens com pessoas que também as testemunharam. Faço estas considerações quando reencontro em São Paulo um amigo com quem tive uma fraterna convivência nos meus tempos de juventude, mais ou menos, há uns 50 anos atrás.          Na verdade, não consegui de imediato correlacionar aquele senhor de bigodes e cabelos esbranquiçados com o adolescente de faces rosadas e aparência juvenil. Dois retratos de duas épocas distantes fixaram comparativamente em minha mente. O jovem e brilhante estudante que foi aprovado em um dos primeiros lugares no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o famoso ITA, e o atual professor universitário de uma das melhores faculdades paulistas.
     Já com o desenrolar da conversa e as recordações aflorando, as nossas aparências da atualidade já pouco importam, pois a alma não envelhece e antigas recordações povoam nossas mentes resgatando um passado prenhe de acontecimentos, alguns ligados ao ardor da juventude nos embates da fervilhante política estudantil da época.
      Simão Copeliovitch é o nome de meu antigo e recente amigo. Sobrenome complicado em uma pessoa simples e afável. Como é bom reencontrar verdadeiros amigos, pois como diz um dos grandes poetas de nosso cancioneiro popular, amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito. Nunca sai.