domingo, 18 de junho de 2017

MEU TIO ADOLFO


    Bem no final da década de trinta do século passado, enquanto a Europa fervia com o prenúncio da tormenta que seria a segunda guerra mundial, um jovem de cabelos louros e olhos bem azuis aportava em Recife. O nome que recebera na pia batismal era o mesmo do odiado líder político de sua terra natal. No entanto, a semelhança entre os dois não ultrapassa o prenome, pois o Adolfo de quem vou falar foi uma das pessoas mais cândida, mais pacífica e mais tranquila que conheci nessa estrada da vida que percorro há tanto tempo. Contabilista forma­do em sua cidade, Hamburgo, trocara sua pátria pelo Nordeste brasileiro, não só atraído pela oferta de emprego que a grande empresa dirigida pela família Lundgren lhe havia proposto, mas, certamente, para escapar do complicado momento político por que passava seu país.
    Um dos prazeres do jovem alemão era jogar tênis com alguns colegas de trabalho, vários deles seus compatriotas, pois nos quadros administrativos das Casas Pernambucanas, cuja sede, na época, ficava em Recife, havia vários funcionários de nacionalidade alemã.
     Arlinda era uma morena bonita, extrovertida, adorava dançar e frequentava o mesmo clube onde o jovem alemão praticava o referido esporte. E foi jus­tamente ao vê-lo de raquete em punho, que num domingo no início da década de quarenta, um cupido de plantão atirou-lhe a tal flecha do amor, aliás, não apenas em sua direção, mas acertando também o jovem e belo tenista. Daí as juras de amor que nascia entre a morena de olhos negros e o louro de olhos azuis somente seriam abaladas pelo acontecimento político que marcou profundamente àquela época, a declaração de guerra entre o Brasil e a Alemanha.
   Num piscar de olhos, o jovem que até então era tido como um grande amigo do Brasil, passou a ser olhado com a lente da desconfiança. Afinal era um alemão  e ainda por cima ostentando o mesmo nome do odiado líder máximo do nazismo e, como consequência, a linda morena Arlinda era admoestada e pressionada, inclusive por familiares, para que rompesse o namoro com o "ini­migo".
   Apaixonada, aliás, gamada pelo belo tenista germânico, Arlinda fincou o pé: "Não acabo, pois estou amando". E estava mesmo, pois a imensa campanha antialemã que tomou conta do país, inclusive com depredações e ataques a inúmeros estabelecimentos comerciais de pro­priedade de germânicos, na verdade, não mudou o posicionamento da jovem morena. "Estamos apaixonados e nenhuma guerra vai nos separar". E não separou mesmo, pois nem a ca­deia imposta ao jovem Adolpho, preso e recolhido à Casa de Detenção de Recife pelo "crime" de ser alemão, conseguiu afastar a linda morena de seu amado. Na verdade uniu ainda mais, pois todos os dias em que eram permitidas as visitas, lá estava ela, sempre levando alguma coisa ao jo­vem prisioneiro.
    Aí surgiu a novidade que abalou os alicerces da família. "Papai, o senhor vai ter que assinar um termo de responsabilidade para que o Adolfo saia da cadeia. Con­versei lá na Casa de Detenção e ele pode passar para a prisão domiciliar, ou seja, ficar aqui em casa, desde que o senhor se responsabilize por ele. E o senhor vai se responsabilizar." - assim disse resolutamente a jovem Arlinda. Bem, não vou afirmar que o velho Luiz Máximo, pai da jovem morena e meu avô paterno, tenha saltado de alegria com a imposição da filha. Ao revés, seus brios patrióticos e seu anti tudo que cheirasse a germanismo, sem dúvida, insuflado pela grande propaganda contrária aos inimigos, fato que acontece em todas as guerras, emperdigaram-no numa revolta íntima. "Arlinda está louca! Botar um alemão para morar aqui dentro de casa!". Mas, o amor pa­terno e, claro, o bom senso, falaram mais alto e, dias depois, lá estava “o inimigo” vivendo em sua casa, e   melhor de tudo, bem pertinho de sua amada, embora, quanto às intimidades, evidentemente com as restrições próprias da época, monitoradas por todos os lados.
      No entanto, as restrições não foram muito longe, pois alguns meses depois, numa cerimônia simples, o jovem Adolpho Werner  Kautz casava-se com a também jo­vem Arlinda Pereira de Araujo, que passou a chamar-se, orgulhosamente, Arlinda de Araujo Kautz. E o prêmio não tardou a chegar, pois no dia 13 de abril de 1944, para a alegria de todos, inclusive de meu avô, nascia um bebê bem lourinho como o pai que na pia batismal recebeu o nome de Frederico e, durante toda a sua vida, ostentou o apelido de Fred, um primo de quem trago muitas e muitas lembranças.
   Tio Adolpho ocupa um lugar muito especial em meu baú de recorda­ções. Lembro-me, e muito bem, de sua aparência desde  bem jovem ao chegar ao Rio de Janeiro, logo após o termino da segunda guerra mundial e até muitos anos depois, já nos seus derradeiros dias, movimentando-se com muita dificuldade em razão de um reumatismo deformante que atacou suas pernas e mãos. Acompanhei a trajetória de sua vida familiar, com muitas e muitas visitas, muitas conversas, bem como o crescimento de seus filhos Fred e Vânia, uma lourinha que na juventu­de chamava a atenção por sua beleza germânica, por seus olhos azuis cor do céu.
     O passar do tempo é o maior destruidor de tudo o que existe, seja ruim ou bom. Só não destrói as recor­dações. Meus tios Adolfo e Arlinda, há muito já não habitam esse vale de lágrimas e sorrisos em que estamos inseridos. Meu primo Fred viveu muitos anos na Europa, retornou casado com Hertha, uma alemã que conheceu em Paris e com quem teve dois filhos. Viajava constantemente para os quatro cantos do mundo, na qualidade de alto funcionário do BNDES e morreu cedo, coinciden­temente, atacado pelo reumatismo deformante idêntico ao de seu pai. Minha prima Vânia, ainda é muito bonita, teve duas filhas, ambas bem casadas e atualmente vive em Curi­tiba.
    Viver é também ir morrendo aos poucos, pois cada dia que passa corresponde a um. dia a menos que nos separa do dia de todos. Gosto  de escrever e, enquanto a memória der permissão procurarei resgatar retalhos de minha vida e de outras pessoas que também passaram por ela e deixaram a marca indelével de suas existências em meu baú de memórias.  Meu tio Adolfo foi uma delas.


domingo, 4 de junho de 2017

ANTONIO SÉRGIO CARVALHO PIMENTEL

   
        O ano era o de 1940 e, parodiando viagens anteriores, lá íamos nós, minha mãe e os quatro  filhos de então rumo a Belo Horizonte,refúgio de minhas reminiscências dos anos azuis da infância e adolescência. As dezesseis horas no interior de uma antiga e lerda Maria Fumaça, longe de ser uma provação, tornara-se um encantamento para minha sensibilidade infantil. Adorava o ritmo cadenciado e os solavancos dos vagões, os apitos e mesmo a fumaça enjoativa que invadia a composição quando os vários túneis do trajeto eram atravessados. Minha admiração pelas viagens ferroviárias  se estenderia ainda por muitos anos, transferindo- se  na idade adulta para os confortáveis  trens de aço Vera Cruz e Santa Cruz que faziam as linhas do Rio para Belo Horizonte e São Paulo. Não renego minha saudade de um meio de transporte que nunca deveria ter deixado de existir, principalmente num país tão grande como o  Brasil.
      Nos tempos de criança, fizemos várias viagens ferroviárias e Belo Horizonte, antes e depois da de 1940, pois na capital mineira residiam meus avós maternos e  nossa presença na bela capital era constante, principalmente nos fins e meados de cada ano.  Meu pai raramente participava desses deslocamentos, em razão de seu trabalho, mas minha mãe, às vezes com uma criança no colo e outra na barriga e sempre acompanhado de outros filhos, era presença constante  naqueles tempos em que a ferrovia era o principal  meio de transporte. 
    No entanto, a viagem de 1940, marcou-me por uma circunstância que iria influenciar minha vida inteira, o conhecimento e início de uma grande amizade com um menino também hospedado em casa de nossos avós comuns. De fato, ao chegarmos em Belo Horizonte deparamos com uma família que eu ainda não conhecia: meu tio Benedicto, irmão de minha mãe que até então  residia em Campinas, sua então esposa e os dois filhos, Sérgio e Sônia. Meu querido tio Benedicto ainda iria casar-se em segunda núpcias, gerando uma nova família e mais cinco filhos.
     Sérgio, um ano mais velho do que meu irmão Luiz Antonio e dois anos mais do que eu, logo tornou-se uma espécie de líder de nossas influências e brincadeiras. Nossas idas a BH dos tempos infantis e adolescentes tornaram-se mais prazerosas, graças à amizade com nosso primo. Eu, Luiz Antonio e Sérgio formávamos um trio inseparável que se solidificou ainda mais, quando, ainda adolescente, meu primo foi morar em nossa casa no Rio de Janeiro.  Foi, portanto, mais um irmão que se agregou à nossa família.
   Bem mais tarde, funcionário de Prefeitura de Belo Horizonte, Sérgio passou algum tempo em nossa casa no Rio de Janeiro, bairro de Botafogo, onde fora fazer um curso na Fundação Getúlio Vargas. Coincidentemente, lá também estava hospedada uma jovem prima de minha mãe, a meiga ouro-finense Mabel e desse encontro deu-se o rastilho de um amor que geraria uma grande família em todos os sentidos.
  Há alguns dias atrás, num domingo, saía eu de uma sessão de cinema no Rio de Janeiro quando lá pelas dez da noite recebi a notícia do falecimento do meu querido primo em Belo Horizonte. Ainda consegui chegar a tempo para o sepultamento e vê-lo sereno, liberto do sofrimento que o fustigou nos últimos tempos. Antonio Sérgio Carvalho Pimentel, ou simplesmente Sérgio, deixou para todos os que o conheceram e tiveram o privilégio da sua convivência e amizade um exemplo de superação, de conquistas, de realizações e, principalmente, de um grande amor e dedicação à bela família que construiu.