O ano era o de 1936 e meu pai, sem dúvida
um tanto frustrado com a carência de melhores perspectivas profissionais em sua
odontologia na acanhada Ouro Fino de então, resolve mudar para uma cidade
grande. Rio de Janeiro, a charmosa e tão decantada Cidade Maravilhosa, na
época, além de ser a capital, era também a maior metrópole de nosso país e a
que mais atraía migrantes em busca de oportunidades de trabalho. Assim, meu pai
deixou em Ouro Fino minha mãe e os três filhos, pois em junho daquele ano a
família era acrescida de pelo nascimento de Carmen Sylvia, e partiu prometendo retornar em poucos meses
para levar a família, tão logo conseguisse uma casa condigna. Mas o tempo
passava e os poucos meses prometidos já não era tão poucos, até que minha mãe
perdeu a paciência, já em meados de 1937 e exigiu uma definição rápida para o
problema que a afligia.
Foi assim que, sem conseguir a casa
condigna prometida, meu pai retornou a Ouro Fino para nos buscar e fomos todos
para o Rio de Janeiro. Nossa primeira casa, na verdade, era uma casa de pensão,
habitação muito comum no Rio de antigamente, bem próxima das brancas areias de
Copacabana. E foi justamente essas areias brancas que correspondem às minhas
primeiras recordações da Cidade Maravilhosa. Ainda não havia completado meus
três anos, mas a praia , as ondas quebrando e espalhando suas espumas e os
toscos castelos que eu e meu irmão Luiz Antonio construíamos na areia,
permanecem tangíveis em meu baú de recordações pretéritas.
Nosso segundo lar foi, na verdade, um cômodo
de uma modesta casa na Rua Isidro de Figueiredo, bem próximo ao Largo do
Maracanã. Era uma casa antiga, geminada com outra à direita e ocupávamos um
amplo quarto já mobiliado com uma grande janela que dava direto para a calçada.
Nessa segunda habitação carioca, em que permanecemos durante alguns meses,
minha memória já resgata várias lembranças que permanecem vívidas até os dias
atuais. Além de nossa família, moravam na casa os nossos senhorios, um casal de
velhinhos, Seu Pacífico e Dona Benta, além de uma filha de nome Teresa, que era
quem geria de fato a habitação.
A rua era pequena, pois tinha apenas
um quarteirão que começava numa via bem movimentada, a Rua São Francisco Xavier
e terminava bem em frente a um hipódromo, na época já desativado, o antigo
Derby Clube, onde hoje está edificado o majestoso Estádio do Maracanã. E foi na
Rua Isidro de Figueiredo que meus pais construíram uma das mais sólidas
amizades com uma família vizinha, amizade que perdurou durante muitos anos. E
essa grande e fraterna amizade nasceu justamente com os que residiam na casa
geminada à nossa, pertencente a um advogado, Doutor Emir Silveira, casado com
uma senhora portuguesa, Dona Maria, e que, na época tinham três filhos, todos
com nomes indígenas, Irimá, o primogênito, seguido de Guaracy e Moema. Iacy, a
caçula, nasceria alguns meses depois do trágico falecimento de seu pai, vítima
de um acidente de trânsito.
A amizade com essa família foi tão
sólida, que em muitas ocasiões, em nossa infância e adolescência, eu e Luiz
Antonio, passávamos dias hospedados naquela casa tão acolhedora e da qual
guardo muitas lembranças, pois cultivamos uma grande amizade com todos,
principalmente com irmãos Irimá, da mesma idade de meu irmão e Guaracy, um ano
a menos do que eu. Dona Maria foi um exemplo de mulher guerreira, dedicada ao
lar e à educação dos filhos, pois ficando viúva com quatro filhos de tenra
idade e lutando com as dificuldades advindas da trágica e inesperada morte de
seu marido, conseguiu educar e formar todos os filhos, Irimá, em engenharia,
Guaracy, em advocacia, e as duas filhas, no magistério.
Embora a permanência de nossa família na
Rua Isidro de Figueiredo tenha sido muito breve, graças à amizade com a família
Silveira, essa rua e o próprio bairro do Maracanã tornou-se uma referência
importante em minhas recordações, pois mesmo não mais residindo ali, continuamos
as frequentá-lo ainda por muitos anos. A rua, com seu antigo casario, o cinema
Maracanã, palco de tantos filmes que embeveciam minha curiosidade infantil, a
casa de Dona Maria, a criançada e tantas outras coisas ligadas ao bairro,
correspondem a referências importantes em minha vida e bem mais tarde, ao me
tornar assíduo no Estádio do Maracanã, sempre escolhia o trajeto que me
transportava aos tempos de minha infância e que ainda preenche boa parte de meu
baú de recordações.