sábado, 27 de dezembro de 2008

ZIZINHO E PELÉ

       A ascensão de um mulato e ainda por cima com nome de muçulmano ao cargo de presidente da nação mais poderosa do mundo seria inimaginável até há alguns anos atrás. No entanto, não é desse afro-descendente que vou tratar nesta crônica, pois Barack Obama está tão badalado na mídia do planeta que um acréscimo nesta modesta coluna, creio, em nada enriqueceria ao que já foi dito. Prefiro escrever sobre dois outros negros que brilharam, e muito, no chamado esporte das multidões.
         Era o dia 16 de julho de 1950 e em todos os rádios as vozes vibrantes dos locutores esportivos levavam o imaginário do povo brasileiro ao recém inaugurado maior estádio do mundo. As ruas do Brasil mostravam-se desertas e apenas a sonoridade do rádio, na voz de Jorge Curi, Oduvaldo Cozzi, Antonio Cordeiro e outros ases da narração esportiva da época iam detalhando o que ocorria no Maracanã. E o Brasil futebolístico desmoronava na partida final, onde a garra de um Obdúlio Varela superava a técnica de um Zizinho. E aquele que seria considerado o Rei do Futebol e o craque do século, um menino de dez anos, ao lado do velho rádio também sofria com o passar do tempo, mas esperava que seu grande ídolo, com uma jogada genial desse ao Brasil a tão sonhada Copa. Mas Zizinho não fez o gol salvador e o Brasil inteiro chorou.
       O tempo passa e o menino Pelé, envergando a camisa do Santos, já aos dezessete anos começa a despontar como a grande promessa da geração vingadora. O ano era o de 1957 e o Estádio do Pacaembu lotado aguardava o início do clássico São Paulo e Santos. Pelé procura se aquecer batendo bola e ao seu lado, também envergando a camisa do Santos, um dos remanescentes da seleção de 1950, Jair da Rosa Pinto. Mas a atenção do craque adolescente fixava naquele mulato falante do time adversário, aquele velho jogador de 36 anos contratado recentemente pelo São Paulo, Zizinho, seu grande ídolo dos tempos infantis e agora seu companheiro do mesmo gramado.
     Começa o jogo, Zizinho faz de tudo, dá instruções aos demais jogadores, corre como um garoto, passa a bola e dribla com facilidade. Mas Pelé também não fica atrás, pois sua genialidade já despontava avassaladora. Dois craques fabulosos em campo, um quase no final de carreira e outro no limiar de uma trajetória esportiva insuperável até os dias atuais.
     Sem desmerecer o excelente plantel do São Paulo daquele ano, mas Zizinho só não fez chover e foi apontado como o principal artífice da conquista do campeonato paulista de 1957. Era o canto do cisne em grande estilo. O Santos foi vice-campeão naquele ano, mas Pelé, no ano seguinte na Copa da Suécia, iria assombrar o mundo com atuações espetaculares que ficariam perpetuamente cristalizadas na memória dos amantes do futebol. E no dia 29 de junho de 1958, em outra final de Copa do Mundo, o Brasil inteiro chorou novamente, mas lágrimas que extravasavam uma imensa alegria. Da primeira vez ninguém se esquece e o Brasil de Pelé conquistava sua primeira Copa. Dessa vez, Zizinho é quem ficou junto ao rádio torcendo e vibrando pelo seu jovem sucessor.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

NÃO É TÃO FÁCIL COMO FECHAR UMA PARKER 51

     O ato de escrever, como quase todas as práticas que o ser humano conquistou em seu incessante processo evolutivo-cultural, também acompanhou e acompanha o desenvolvimento tecnológico da humanidade. A utilização de pedras, o bico de pena de várias aves, os bastões, o lápis, a pena de metal, canetas tinteiro e esferográfica, as máquinas de escrever manuais e elétricas, o computador e outros apetrechos destinados à grafia, através dos tempos, dão a tônica dessa eterna procura da praticidade em face de um ato tão antigo e tão imprescindível. Me vejo (desculpem-me os puristas da língua) impelido a escrever sobre o tema, em parte por falta de assunto neste momento, em parte porque tenho em minha frente meu “note-book” (bem que eu gostaria de encontrar uma palavra em português que o substituísse, mas qual?) no exato momento em que vejo uma infinidade de nuvens bem abaixo de mim, um céu incrivelmente azul que se perde na linha do horizonte e o comandante informando que estamos voando a 11.500 metros de altitude. De fato, creio ser esta a primeira vez que ouso rascunhar uma pequena crônica, se é que posso assim chamar estas linhas, nas alturas em que me encontro, literalmente.
        Vou dedilhando estas teclas silenciosas, minhas companheiras e instrumentos de trabalho nos últimos anos e minha mente vai se povoando de antigas recordações e de práticas que a tecnologia me fez abdicar. Vejo-me de calças curtas, suspensório de couro, lâmina de barbear marca Gilette fazendo ponta no lápis John Fáber número 2, meu primeiro instrumento de escrever. O segundo, na verdade, eu detestava, mas minha professora da segunda série do primário, Dona Cecília, insistia que deveríamos aprender a escrever manuseando uma caneta de madeira com uma grande pena metálica, que introduzíamos num pequeno vidro de tinta colocado num buraco que havia nas carteiras escolares daqueles tempos. Assim, além de levar para a escola a tal caneta, eu ainda tinha que transportar o vidro de tinta e um mata-borrão. O pior, minhas unhas e dedos ficavam invariavelmente impregnados de azul. Posteriormente, a ato de escrever ficou bem mais fácil, quando ganhei um dos meus acalentados desejos de consumo, uma caneta tinteiro. Ainda não era a caneta dos meus sonhos, a famosa Parker 51, objeto precioso que eu só via nas propagandas das revistas Cruzeiro e Seleções, mas, de qualquer maneira, uma canetinha bem popular nos meios escolares de então, a Sterbook, com sua pena rosqueada e removível. Depois, as máquinas de escrever invadiram meu cotidiano gráfico e passaram a disputar com as canetas-tinteiro e as esferográficas a prática do ato que mais iria caracterizar minha vida profissional – o escrever. A IBM elétrica, modelo 72, com suas esferas removíveis e corretores e que há uns trinta anos me acompanha (Que máquina boa!), atualmente parece estar um tanto triste e enciumada com sua quase nenhuma utilização, principalmente depois da invasão dos computadores.
      Agora, as nuvens no horizonte estão parecidas com milhares de carneirinhos brancos e no momento em que eu fazia algumas projeções futuristas sobre o milenar ato de escrever, a voz um tanto monótona da comissária determina que os aparelhos eletrônicos devem ser desligados, pois o avião está iniciando suas manobras de descida. Vou interromper esses escritos, que demandam algumas fases e alguns minutos, tais como, sair dos programas, desligar, fechar e guardar o “note book”. Não é tão fácil como fechar uma Parker 51.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

BELEZA E VIOLÊNCIA

     Se houver uma competição de beleza entre as cidades mais bonitas do mundo, não tenho dúvida de que o Rio de Janeiro seria a vencedora. No processo de criação, Deus caprichou ao esculpir as montanhas, o mar, as florestas, ilhas e tudo o mais que fosse necessário para torná-la a mais bela entre todas as cidades. Beleza é que não falta à Cidade Maravilhosa. No entanto, o Diabo também resolveu fazer das suas e para atrapalhar aquela obra divina, introduziu na cidade bandos de seus seguidores com a específica tarefa de tornar violentos seus recantos que deveriam ser de contemplação e paz.
      Recentemente concretizei com minha mulher um passeio acalentado desde os tempos da adolescência. Conhecemos Nova Iorque , cidade que muitos consideram a capital do mundo. Nos doze dias de nossa estada na Ilha de Manhattam, na verdade, a parte da grande cidade onde tudo acontece, andamos muito a pé e, nessas caminhadas, também procurei observar e inteirar-me das condições de segurança da imensa metrópole. Os dois hotéis em que nos hospedamos, o primeiro na Rua 49 e o segundo na 56, situavam-se bem próximos ao principal “point” nova-iorquino, ou seja, o famoso “Times Square”, onde o movimento constante de milhares de transeuntes ocupa todas as horas do dia e da noite. Entre as coisas que me impressionaram favoravelmente destacou-se exatamente o sistema de segurança da cidade. Pelo menos na parte central de Manhattam, em qualquer lugar a polícia está presente e assim as pessoas sentem-se seguras.
      O centro do Rio de Janeiro, há alguns anos atrás era um local altamente perigoso, principalmente em razão da proliferação de grupos de menores “trombadinhas” que à luz do dia atacavam as pessoas para a prática de furtos. Com a criação da Guarda Municipal, cuja presença mostra-se constante nos locais mais movimentados, esse tipo de delito praticamente desapareceu. Pelo menos pode-se afirmar que houve alguma melhoria no que concerne à segurança nesses locais, pois a exemplo de Nova Iorque a presença ostensiva do policiamento inibe os criminosos e dá às pessoas a sensação de segurança. No entanto, essa melhoria ainda é muito pequena, pois os crimes de maior potencialidade ofensiva, como os roubos em residências e os assaltos à mão armada continuam proliferando em todos os cantos da cidade. O somatório desses acontecimentos diários dão aos habitantes da Cidade Maravilhosa a sensação de que o Diabo está levando a melhor em sua tarefa de desmoralizar sua beleza. Nas janelas de muitos lares já se vê uma faixa com a inscrição “BASTA”, uma forma que a população está encontrando para protestar contra a violência.       No entanto, imprescindível que as autoridades, de fato, ouçam o protesto e encontrem uma solução que devolva aos cariocas e aos brasileiros o orgulho de possuírem, não apenas a cidade mais bonita do mundo, mas a cidade onde a proteção do Cristo Redentor derrotou para todo e sempre Satanás e seus seguidores.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

SÓ PARA DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

     Geraldo Vandré entoava os primeiros acordes de sua canção e o Maracanãzinho transformava-se numa só voz . Eram milhares as gargantas reprimidas que emocionadas soltavam seu brado de protesto nos acordes de “Pra não dizer que não falei de flores”. Não demorou muito para que a onda nascida num festival de música alcançasse as ruas do Rio de Janeiro e se cristalizasse nos movimentos de protesto que atingiria seu ponto culminante com a famosa marcha dos cem mil. Pela primeira vez, desde o golpe de 64 que a ditadura era desafiada abertamente por um grande movimento popular contestador. A resposta não demorou muito e lançou o país num dos piores atoleiros de sua história, ao rasgarem o que restava da combalida Constituição imposta no ano anterior. Foi a época da vigência do AI5 que trouxe em seu bojo os anos de chumbo, ou melhor dizendo, os anos das torturas, das prisões clandestinas, das execuções sumárias e outras mazelas próprias de um estado totalitário.
    Foi nesse contexto que num certo dia do início da década de 70, cheguei ao Quartel da Polícia do Exército no, Rio de Janeiro, local onde também funcionava uma das dependências do DOI-CODI, o mais temido órgão militar direcionado à repressão. Minha missão de advogado criminalista não me parecia das mais complicadas, pois ali comparecia para conversar com um cliente que se encontrava preso, porém por fatos que não tinham qualquer motivação política. Aguardei numa pequena sala junto à carceragem e enquanto esperava, fiz algumas observações que bem demonstravam o difícil momento em que vivíamos. O militar que me atendeu, um sargento louro de aspecto e nome que demonstrava sua origem germânica, tinha uma fita crepe cobrindo sua identificação. Lembro-me de ter vislumbrado pela janela basculante que dava para um pátio interno, vários presos encapuzados. Chegando o prisioneiro, sentamos num surrado sofá e durante a conversa notei que ele aparentava um certo nervosismo, até que me entregou um pequeno bilhete que escondia em suas vestes. Terminada a entrevista saí e ,já na rua, li o seu conteúdo . Era de um prisioneiro político pedindo que avisasse a sua família que estava preso naquele local e pedia que providenciasse um advogado.
      Telefonei para os familiares do tal prisioneiro e no dia seguinte retornei ao referido quartel com a incumbência de tentar avistar-me com o mencionado prisioneiro. Mas dessa vez minha missão já não foi tranqüila. De início a informação que eu obtinha era a de que não havia nenhum preso com o nome que eu declinara. Depois de várias insistências, em que eu exibia uma cópia do bilhete e invocava preceitos legais relativos às prerrogativas do advogado, fui levado à presença de um oficial que quase aos berros proferiu mais ou menos essas palavras: “Este negócio de constituição, de lei, pode até funcionar daquela porta pra fora. Aqui dentro é Exército e se você não sair daqui agora, vai fazer companhia ao seu cliente. E vá se queixar ao Papa.” Saí, mas não fui me queixar ao Papa e sim ao Juízo competente, no caso, a Auditoria do Exército. Não adiantou muito em relação à minha pretensão de avistar-me com o referido prisioneiro, pois o Poder Judiciário, principalmente o militar, muitas vezes, era até conivente com os desmandos que se praticavam naqueles tempos. No entanto, pelo menos, o nome do prisioneiro passou a constar na relação dos que se encontravam naquela dependência militar, o que já significava muito, num tempo de barbárie em que era comum presos desaparecerem ou “suicidarem”.
     Apesar das crises, como a que estamos vivenciando no atual momento, é bem melhor viver num estado de direito e poder dizer o que se pensa, como faço agora. A crônica de hoje é “Só para dizer que não falei das flores.”.

domingo, 18 de maio de 2008

UM TERRAÇO ENCANTADO

    O lugar era um terraço encantado, melhor dizendo, a cobertura de um apartamento na Avenida Bartolomeu Mitre, bairro do Leblon, Cidade Maravilhosa. Anos dourados, quase no final da década de cinqüenta, rapazes e moças, muito gim com água tônica, violões, cantorias a valer. Às vezes, a noitada terminava na praia vendo o sol nascer, num tempo em que ainda se podia fazer tais programas.
Vera, a colega de faculdade que nos brindava com seu terraço encantado, tinha um sorriso triste e carregava a frustração de ter sido aprovada no concurso que lhe abriria a porta para sua vocação, a diplomacia, mas, barrada num incompreensível teste psicológico. Eu não diria que era uma moça feia, mas estava longe, muito longe de ser considerada bonita. Nessa época teria uns vinte e cinco anos, um tanto alta para os padrões femininos, corpo atlético em contraste com a doçura de seus gestos e de sua voz.
     Tornamo-nos amigos e passei a freqüentar sua casa, ou melhor, seu terraço, mesmo fora das reuniões noturnas. A desculpa era o estudo, mas acabávamos invariavelmente curtindo Aznavour ainda no início de carreira regado a muito gim-tônico.
     Madalena, sua mãe rica e viúva, não escondia sua preocupação com as libações alcoólicas da filha única, e procurava nos freqüentadores mais assíduos do “Chez Nous”, o nome que batizamos o terraço, algum cúmplice na tentativa de afastá-la do copo. Esforço inútil, pois além do cigarro, sua marca registrada era o copo de gim-tônico, quase uma extensão de sua mão direita.
     E as músicas? Além do indefectível Charles Aznavour, em nossas reuniões curtíamos Piaff, além das brasileiríssimas Dolores Duran e Elizete Cardoso. Nas cantorias, tal qual em inúmeros outros apartamentos da Zona Sul carioca, predominavam os acordes sincopados da Bossa Nova, ainda em seus primórdios. Lembro-me bem de um jovem diplomata, amigo de nossa anfitriã, que dedilhava com maestria uma canção de sua lavra que se tornaria uma espécie de hino para os jovens freqüentadores do terraço. Tanto a música como a letra ficaram impregnadas nos porões de minha memória, mesmo passados quase cinqüenta anos: “Chez nous, nous irons toujours/ veio a lua no telhado/ mas o único embaraço / é saber como sair..../ Bebendo gim, batendo papo/ Madalena lá em baixo dando bronca/ Nous irons toujours...”
     Bem, para encurtar a conversa, mesmo porque coluna de jornal tem tamanho programado, o passar impiedoso do tempo, carrasco implacável das ilusões da juventude encarregou-se de desfazer a turma e cada um tomou seu destino. Nunca mais vi minha triste amiga Vera, mas tomei conhecimento de sua existência posterior através da imprensa. A primeira vez, pela televisão quando focalizaram um mulher magérrima, desfigurada pelo uso excessivo de drogas, equilibrando-se no beiral de um edifício em Ipanema, pronta para o salto mortal. Foi salva pelos bombeiros e encaminhada a uma clínica psiquiátrica. E a segunda vez, bem mais recente, nos anúncios fúnebres do jornal, “ O Globo”, em que sua mãe, convidava parentes e amigos para a missa de 7º dia. Compareci à Igreja de Santa Mônica, mas poucas pessoas lá estavam e, dos freqüentadores do terraço, apenas uma de nome Maria Helena, amiga até os últimos dias de minha antiga amiga. Madalena lá estava, ainda rija, apesar dos seus oitenta e tantos anos, mas imensamente triste e frustrada com a morte da filha. Vera contraíra um câncer galopante, justamente quando a vida lhe parecia mais prazerosa, pois livrara-se do alcoolismo e da dependência das drogas e trabalhava com dedicação no conhecido estabelecimento de ensino de sua família .
      Saí da igreja conversando com Maria Helena e não deixamos de recordar aqueles tempos da juventude e mesmo cantar baixinho: “Chez nous, nous irons toujours...” .

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Guido Rocha

Guido Rocha
       Ainda hoje, tantos anos passados, meus pensamentos e devaneios, vez por outra, ainda viajam para os anos azuis da adolescência. Refúgio de todas as férias, me vejo na Belo Horizonte, anos cinqüenta, junto ao fogão de lenha da casa de minha avó e ainda me bate a saudade daquele aroma indefinível de casa antiga. Na rua pavimentada a profusão de crianças, bicicletas, patins e, de repente, a menina loura e bonita sorriu ao passar e notei que seus olhos eram azuis. Naquele dia tão distante que hoje me chega embuçado de lembranças juvenis, um cupido de plantão acertou-me sua primeira flechada. Da primeira namorada ninguém se esquece.
      E os amigos? Jovens, imberbes, impetuosos, donos de um mundo que não existia e entre eles um quase filósofo, teórico de uma sociedade perfeita, sem competição entre as classes sociais. Guido de Souza Rocha, amigo que assumiu seu comunismo sem medo, sem preconceito. Artista plástico dos melhores,foi aluno de Guinard. O amigo sociólogo idealista das Ligas Camponesas que nos tristes tempos da ditadura bateu minha porta em busca de refúgio. O amigo que foi preso, torturado, que se asilou no Chile de Allende, que foi novamente preso, que viveu na Suíça, que voltando ao Brasil mostrou seus cristos torturados, seus cristos inconformados, seus cristos que protestavam contra a injustiça social, contra o arbítrio , seus cristos que lutavam para sair da cruz e defender os oprimidos.
       Pois é, meu amigo Guido Rocha já não está entre nós. Foi se juntar a outros amigos que o passar do tempo inclemente vai aos poucos excluindo de nossa convivência. Talvez, com sua imensa criatividade, esteja esculpindo outros cristos, em outra galáxia, em outra esfera onde as injustiças sociais não existam e os homens sejam de fato irmãos.

sábado, 8 de março de 2008

UM FENÔMENO CHAMADO ZIZINHO

No trajeto diário para o colégio, eu passava em frente ao monumental estádio ainda em construção. O local era meu velho conhecido, pois alguns anos atrás minha antiga casa ficava a poucos metros de uma pequena arquibancada em ruínas que já abrigara os aficionados das corridas de cavalo. Era o local onde funcionara o antigo Derby Club que se preparava para abrigar o maior estádio do mundo, o Maracanã. O ano era o de 1949 e eu, um garoto de catorze anos, subia pela primeira vez a rampa do grande estádio em construção. O verde do gramado resplandecia e sua forma arredondada ficou eternamente gravada em minha memória. Uma fotografia imaginária, que eu constantemente resgato dos porões de minhas lembranças..
Depois, o estádio deixou de ser novidade e progressivamente entrou para minha rotina de torcedor. O velho São Januário, que antes parecia imenso ao meu olhar adolescente, encolheu envergonhado ante a imensidão de seu novo rival. E naquele gramado redondo, nos primeiros anos de sua trajetória de maior do mundo, brilhava a estrela de um grande artista da bola envergando a camisa rubro-negra. O maior craque daquela época, o ídolo de todos os amantes do futebol arte e até de Pelé, que se espelhou em seu primoroso futebol. Seu nome de batismo e registro era Tomaz Soares da Silva, mas no futebol, um fenômeno chamado Zizinho.
Era um mulato de estatura mediana, cabelos pretos anelados e brilhosos, fluente no falar, ágil em seus dribles milimétricos, preciso ao passar a bola e, como se não bastasse, um artilheiro com grande pontaria. Inteligente, possuía uma visão de jogo incrível e constantemente, através de uma precisão inimaginável ao passar a bola, deixava seus companheiros na cara do gol. Eu sempre fui um amante do futebol e, ainda não descobri o porquê, torcedor do América, um mistério indecifrável. Além de acompanhar meu time nos principais jogos, ia constantemente ao Maracanã, especialmente para ver a atuação de alguns jogadores de grande qualidade técnica, entre os quais reinava o futebol arte de Zizinho.
Em relação aos grandes craques que atuaram num passado um pouco mais recente, tais como Pelé, Garrincha, Zico, Maradona, Sócrates , entre outros, é muito fácil fazer-se uma avaliação de suas qualidades e até mesmo compará-los com outros jogadores, pois há inúmeros registros em filmagens. No entanto, já não acontece o mesmo com aqueles que pertenceram a gerações mais distantes, pois nada, ou quase nada sobrou em imagens que refletissem a grandeza do futebol que praticaram. Assim, as jogadas geniais de Zizinho, bem como as arrancadas fulminantes em direção ao gol do grande Ademir Menezes, ficaram arquivadas apenas nas lembranças dos mais velhos, tal qual a primeira impressão do gramado verde do Maracanã ficou em minha memória. De vez em quanto, como bom saudosista, vou ao arquivo de minhas antigas recordações para retornar ao Maracanã daqueles tempos e, misturando-me aos cento e tantos mil torcedores , aplaudir em meus devaneios as incríveis jogadas de Zizinho. Mas que saudade!

quinta-feira, 6 de março de 2008

MEU TIO JOÃO LÚCIO

      Quero ressaltar dois aspectos ligados a Belo Horizonte de minha infância . O primeiro prende-se a viagem que , pelo menos , duas vezes ao ano fazíamos à capital mineira. Morávamos no Rio de Janeiro e , principalmente nos períodos de férias escolares , lá íamos nós , mamãe e a filharada enfrentar a longa viagem de trem. Não sei porque , mas eu era uma criança que tinha uma atração muito especial pelas trens que desbravavam o Brasil e o mundo , sendo o principal meio de transporte na primeira metade do século passado. As grandes locomotivas , sejam elas as antigas “Maria Fumaça”, ou já no final da década de quarenta , as imponentes “General Electric”, movidas alternativamente a eletricidade ou óleo diesel , mexiam com minha sensibilidade de menino curioso . Em contraste com alguns membros de minha família, que detestavam a viagem, principalmente minha irmã Carmen Sylvia que enjoava o tempo inteiro, eu curtia prazerosamente todo o seu transcurso. Conhecia todas as paradas do trajeto , adorava a hora de ir ao restaurante, puxava conversa com outros passageiros, apreciava até a voz monótona e cadenciada do chefe do trem , quando percorria todos os vagões para anunciar a estação que se avizinhava : “Juiiiz de Fooora”, “Barrrbacena”.
      O outro , era a casa e a presença marcante em meus tempos de criança de meu tio João Lúcio . Um dos escritores mineiros mais conhecidos daquela época , casado com uma das irmãs de minha avó materna , a minha sempre querida e nunca esquecida Tia Luíza , o ouro-finense João Lúcio Brandão tinha uma característica pessoal que o tornava extremamente querido por mim . Ele brincava, conversava, mostrava gravuras, lia textos infantis, enfim dava atenção a todas as crianças que freqüentavam sua casa.
      Morava numa residência imponente no bairro Funcionários, ainda hoje existente, embora bastante modificada em sua estrutura e aspecto original . Era uma casa de dois pavimentos , centrada em um grande terreno , pois se alastrava por mais da metade do quarteirão que a circundavam. Em seu quintal havia espaço para horta , galinheiro, um caramanchão coberto com parreira e inúmeras árvores frutíferas. Recordo-me com clareza da parte interna da casa , de todos os seus cômodos e até da disposição de seus móveis.
O lugar que eu mais gostava e comparecia assiduamente era a grande sala de frente que dava para a Avenida Brasil , ocupada pelo escritório e biblioteca . Seus móveis eram em estilo colonial , envernizados em coloração escura. Suas estantes eram guarnecidas por grande quantidade de livros encadernados uniformemente, havia ainda várias peças decorativas em que pontificavam imitações de caveiras . Foi nesse local, maravilhoso para minha sensibilidade infantil, que meu Tio João Lúcio , pacientemente, mostrava-me gravuras, pedia que eu lesse trechos de seus livros infantis, contava-me histórias e procurava interessar-me pelo mundo das letras.
Bem mais tarde , já professor de Português , li seus romances e pude aquilatar o grande valor literário desse escritor , sem dúvida, uma das maiores expressões de nossa literatura regionalista , infelizmente esquecido nos dias atuais.
Eu tinha uns treze ou quatorze anos quando vi meu tio pela última vez. Foi no Rio de Janeiro , num quarto da Casa de Saúde São José , onde se recuperava de uma cirurgia no pulmão feita há alguns dias atrás, tentativa frustrada de estancar uma doença insidiosa . Lembro-me perfeitamente até de sua voz, quando me chamou para junto de sua cama e disse pausadamente : “Dessa vez estão me dando uma surra . ”

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

REMINISCÊNCIAS BELORIZONTINAS 2

A adolescência é a fase das novidades. Os acontecimentos, as experiências, as alegrias e até mesmo as decepções que vão nos marcando pela vida a fora, naquela idade considerada azul pelos poetas, batem diferente na sensibilidade de cada um. Assim a reunião da “nossa turma” que ocorria aos sábados na parte de cima de um pequeno bar situado na Rua da Bahia , o Bar Caçula, tinha uma conotação especial para todos os que dela participavam.
Como em qualquer grupo que se forma invariavelmente surge uma liderança, a nossa era exercida pelo Helio Moraes, um rapaz um pouco mais velho do que os demais componentes da turma. Estudante da Faculdade de Direito , filho de um conhecido desembargador de Minas Gerais, rosto redondo em desconformidade com seu corpo um tanto franzino, olhos esverdeados e cabelos sempre aparados , podia-se afirmar que o nosso líder era um rapaz bonito . Irradiava para todos uma grande simpatia através de um sorriso constante onde pontificam uns dentes grandes e bem cuidados. E a voz do líder sobressaía ao puxar com entusiasmo o conhecido “Oh que belos companheiros, como viram tão ligeiro ,se és covarde saia da mesa, que a nossa empresa, requer valor . Primeira bateria, vira, vira, vira.....” . E logo depois da primeira bateria, que era sempre exercida pelo próprio Helio, cada um de nós ia virando goela abaixo, pois ninguém queria ser covarde, o copo duplo de samba-em-berlim ou de gim com água tônica. De vez em quando surgia um litro de legítimo “whisky” escocês, isto quando um outro componente da turma, o Renato Figueiredo, mais conhecido como Renato Javali em razão da proeminência de sua arcada dentária superior, surgia vitorioso empunhando a preciosa bebida surrupiada da adega paterna. Esclareça-se que o Renato, por ser filho de um diretor de conhecido banco mineiro, era considerado o riquinho da turma.
A “nossa turma” tinha uma característica bem marcante que a fez conhecida na BH dos anos dourados. Nós não éramos briguentos, não fazíamos arruaças e , apesar do nosso “vira-vira” dos sábados à noite, também não éramos beberrões. No entanto, tínhamos um objetivo que, invariavelmente, executávamos logo terminada nossa reunião semanal do Bar Caçula : ir a um baile ou a uma grande festa familiar, sempre entrando de penetra , pois como convidados ou pagando , não havia a menor graça . A escolha do local era discutida na reunião e as formas de se penetrar eram as mais incríveis e inusitadas . Subíamos em árvores até a janela de acesso ao objetivo, pulávamos às vezes mais de um muro, caindo em vários quintais até chegar ao local festivo, escalávamos marquises , passávamos de uma sacada para outra, enfim , usávamos qualquer recurso que nos levasse ao objetivo traçado. E sempre, sob o comando firme de nosso líder, agíamos em solidariedade, pois , de acordo com nossas regras, ninguém deveria ficar de fora .
Belo Horizonte de minha infância, adolescência e mocidade era uma cidade que tinha um sabor , uma atração tão especial sobre minha sensibilidade florescente que hoje , tantos anos passados, sua presença continua viva como se o tempo houvesse estagnado . Na atualidade, quando ocasionalmente visito a bela capital mineira, por vezes, me vejo perdido na turbulência de suas largas avenidas à procura de um rosto amigo , de um fragmento , de uma saudade materializada, que me devolva parte de um tempo tão descompromissado e feliz.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

REMINISCÊNCIAS BELORIZONTINAS 1

À medida que o passar do tempo vai deixando suas marcas em nosso corpo, vez por outra, procuramos resgatar dos porões da memória antigas recordações dos verdes anos da mocidade . Rostos , vozes, perfumes, músicas e, até mesmo, alguns gestos quedam-se imobilizados em nossa mente como um painel de exposição. De repente, transporto-me para Belo Horizonte dos anos dourados, cidade boêmia, bucólica , dos bondes amarelos e das lindas moças que faziam o “footing” na Praça da Liberdade .
A casa da minha avó, refúgio de minhas temporadas mineiras, ficava numa então pacata rua no bairro de Santo Antonio. Larga e bem asfaltada , num tempo em que os automóveis conviviam em plena harmonia com o futebol, os patins e as bicicletas , a Fernandes Tourinho tinha um permanente aspecto recreativo . Foi lá que meu coração adolescente recebeu a primeira flechada de um Cupido de plantão quando, numa certa tarde, vi uma jovem sorridente que vestia azul e pilotava uma bicicleta Monark também azul. O primeiro amor, ou a primeira paixão, como quiserem, geralmente não dá em nada sério, mas sempre bate fundo num coração inexperiente e durante muito tempo provoca lágrimas e noites mal dormidas. Quem não as teve ?
E os meus primeiros contatos com as noites de boemia (ou boêmia como preferem os puristas) , também tiveram como palco a Belo Horizonte dos anos cinqüenta . No Montanhês, a magnífica orquestra do Maestro Castilho, afinadíssima, empolgava os “pés-de-valsas” e eu , timidamente, também arriscava alguns passos mais ousados. Em outro cabaré, um cantor argentino, sem dúvida completamente desconhecido das plagas portenhas, mas conhecidíssimo na Rua Guaicurus e adjacências, de chapéu, cachecol , cigarro sempre pendente no canto da boca, entoava tangos de Gardel e alguns que afirmava ser de sua lavra . Muitas mulheres da noite chegavam a chorar de emoção ao vê-lo cantar .
E os rapazes de minha turma ? Seus rostos , expressões, vozes, olhares, gozações, gestos, acompanham-me pela vida a fora. Faziam parte, meu primo Sérgio Pimentel, Pedro Senna Horta , Helio Moraes, Guido Rocha, Moacyr Miranda (Mãozinha) , Serginho Boa Pinta, Oswaldo Girão, Renato Figueiredo (Javali), Fernando Ramos, Guido Rocha e mais alguns que , esporadicamente, também compareciam ao nosso ponto de reunião dos sábados, o antigo Bar Caçúla, na Rua da Bahia, tais como, Achilles Reis, Renato Girão, Hélio Barreto, José Bráulio e meu irmão Luiz Antonio. Como decorrência lógica do transcurso de mais de meio século, alguns desses rapazes já não nos acompanham nesse vale de lágrimas, emoções e sorrisos em que ainda vivemos.
O hábito de falar de coisas antigas indica que estamos ficando velhos. No entanto, eu assumo plenamente esta minha “melhor idade” e ainda pretendo detalhar alguns aspectos dessas reminiscências, principalmente no que diz respeito a minha “famosa” turma . Recordar também é viver.