sexta-feira, 30 de outubro de 2015

RETROCESSO E TORTURA, NUNCA MAIS


      Um dos principais princípios do estado democrático repousa na liberdade de opinião. Assim, cada um de nós temos a liberdade e expressar o que pensamos, sejam eles de caráter político, religioso ou lá o que for, pois se assim não fosse não viveríamos numa democracia. Nos dias atuais, as redes sociais transformaram-se  na ferramenta mais ampla e democrática para a exposição e circulação  de ideias.  Na verdade elas funcionam  de forma bem mais ampla  e democrática do que a própria imprensa tradicional, pois sua amplitude está nos dedos de qualquer pessoa ao digitar sua opinião e sua liberdade de expressão não está condicionada à linha de opinião dos órgãos da imprensa, principalmente da chamada grande imprensa.
    O jornal em que escrevo, a Gazeta de Ouro Fino, um pequeno e centenário jornal de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, graças ao espírito democrático de seus dirigentes, respeita a liberdade de opinião de seus redatores e colaboradores. É um jornal coerente com a liberdade de expressão dos dias em que vivemos, mas é uma exceção se fizermos uma comparação com os grandes veículos da imprensa falada, televisada ou impressa, em que seus redatores ficam condicionados a se manifestarem apenas de acordo com o pensamento político de seus dirigentes. 
   De qualquer forma, mesmo com essas ressalvas, não se pode negar  que no Brasil há liberdade de imprensa, acrescida  da mais ampla liberdade de opinião através da Internet.  No entanto, embora haja uma tradição libertária em relação à imprensa que vem desde os tempos do império, nem sempre foi assim, pois num passado recente e ainda na memória  de muita gente, ela foi sufocada através de atos discricionários, tais como,  a presença diária de censores nas redações, proibição de veicular determinadas notícias e até prisões, torturas e morte de jornalistas, a exemplo do ocorrido com jornalista Vladimir Herzog. Naquela época ainda não existia a Internet e os acontecimentos que não se podiam publicar eram varridos para debaixo do tapete a espera de que ventos mais favoráveis à democracia soprassem e removessem o lixo autoritário, o que de fato ocorreu.  Não se pode eternizar um estado totalitário, pois o desejo do homem em busca da liberdade em todos os seus matizes, inclusive o de expressão, representa um aspiração natural, intrínseca ao ser humano.
     Qualquer regime ditatorial, sejam eles de esquerda ou de direita, e mesmo de inspiração religiosa ou de castas como se vê em países do Oriente Médio, mostra-se ofensivo à dignidade do ser humano, ainda que no seu nascedouro representem uma aspiração legítima do povo.  No Brasil, inconteste que o golpe militar  deflagrado em 31 de março de 1964, golpe que afastou o presidente João Goulart, recebeu grande apoio popular, em especial por parte considerável da classe média, receosa com os rumos esquerdistas do então governo.  No entanto, o apoio inicial foi diminuindo, à medida que o governo não mais disfarçava sua face autoritária, até chegar à ditadura escancarada do início dos anos setenta, em que a repressão aos que ousavam afrontá-la chegou às raias do absurdo inaceitável, a exemplo da Casa da Morte de Petrópolis, presídio clandestino,  em que dezenas de pessoas foram torturadas e executadas.
     Recentemente, um oficial do exército que assumiu pública e corajosamente sua condição de torturador, afirmou perante a Comissão da Verdade que na referida Casa da Morte, dezenas de pessoas foram mortas, tiveram seus dedos cortados e dentes arrancados para impedir a identificação, suas vísceras retiradas para que  o corpo não boiasse  e atirados num rio que passava nas proximidades da mencionada casa.  Afirmou ainda que recebia ordens de seus superiores e que eles, os generais,  tinham pleno conhecimento do que ocorria na referida casa de suplício. 
     Faço essas considerações  num momento em que antevejo em certas mensagens que circulam nas redes sociais, não apenas um certo saudosismo em relação a essa época, mas também um desejo de  retornar aos tempos ditatoriais. Essas pessoas, a maioria de  jovens que  nem viveram os tempos do autoritarismo militar, repassam mensagens de loas à ditadura e críticas à democracia,  justamente aproveitando a liberdade de expressão que hoje usufruímos. Criticam a democracia, mas a usam como veículo de suas criticas.
        Não descarto a certeza de que viver num regime democrático tem um preço, talvez bem maior do que viver num regime ditatorial. No entanto o direito de criticar, de denunciar, de escolher seus representantes através do voto, de não ser punido, torturado ou morto por expressar suas convicções, ou seja, o direito de sentir-se livre, a meu ver, representa uma das maiores conquistas  do ser humano. Retrocesso e tortura, nunca mais.         

POMPÉIA , A PONTE AÉREA DO AMÉRICA


      José Valentim da Silva, mineiro de Itajubá, em seus tempos de escola pública adorava desenhar personagens dos gibis de antigamente, principalmente o marinheiro Popeye. Daí, por gozação, seus colegas passaram a chamá-lo de Pompéia e o apelido pegou tanto que nunca mais o abandonou. Ainda criança, alto e esguio, especializou-se em saltos acrobáticos, o que lhe rendeu muitas exibições em circos no Sul de Minas. Além do circo, outra de suas paixões era o futebol e bem cedo já fazia seus gols na posição de centro-avante no São Paulo, equipe da segunda divisão de sua cidade.
      Em certa ocasião, o goleiro de seu time adoeceu e o centro-avante Pompéia foi escalado para substituí-lo. Embora nunca houvesse jogado nessa posição, saiu-se maravilhosamente, graças à  elasticidade adquirida  em seus tempos de artista de circo. E não deu outra, daí em diante o centro avante trocou de posição, tornando-se mais tarde um dos grandes ídolos do futebol brasileiro. Contratado pelo Bonsucesso do Rio de Janeiro, sua atuação logo chamou a atenção de um grande clube carioca na época, o América, para onde se transferiu e  permaneceu por mais de dez anos.  
    Pompéia tinha uma característica que o destacava dos outros goleiros. Ele não apenas defendia, mas enfeitava tanto suas defesas com saltos incríveis que suas atuações aproximavam-se de um verdadeiro espetáculo circense. Bolas fáceis que os outros goleiros apenas encaixavam, transformavam-se em demonstrações acrobáticas, para delírio dos torcedores e dos locutores esportivos que o apelidavam de Constellation, famosa aeronave da época, Ponte Aérea e outras designações  relativas ao seu modo de atuar.
    Nelson Rodrigues, teatrólogo e escritor que dispensa adjetivos, torcedor fanático do Fluminense, escrevia excelentes crônicas sobre futebol e numa delas, assim caracteriza Pompéia: É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais acrobático do mundo. Nada tem de simples: − ele complica tudo. Em primeiro lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram geniais.
  Sim, de fato, Pompéia era um artista de circo e transformava suas defesas em obras de arte. A área era seu picadeiro e ao complicar uma defesa aparentemente fácil com saltos ornamentais, sua intenção era brindar o público. Era o malabarista, o acrobata e também o palhaço. E os torcedores deliravam, aplaudiam e até perdoavam quando alguma coisa não dava certo. Sem a menor dúvida, foi o goleiro do América mais amado pela torcida  e até hoje é lembrado com saudade pelos mais velhos, como eu, que tiveram o privilégio de vê-lo atuar.
   Teve um final triste, tanto nas quatro linhas do gramado, quanto na vida. No final de carreira, depois de ter atuado pelo Porto, de Portugal, transferiu-se para um time da Venezuela, o Desportivo Português. E foi exatamente nesta equipe, num jogo amistoso contra o Real Madrid da Espanha que Pompéia encerrou bruscamente sua carreira de jogador.  Num chute fortíssimo do genial Di Stefano, a bola chocou-se com seu rosto.  Pompéia desmaiou e ao acordar no hospital estava completamente cego do olho esquerdo.
  Desiludido, retornou ao Brasil, tornou-se alcoólatra, morrendo abandonado e  na mais completa miséria em 1996, aos 61 anos de idade.
    Pompéia chegou a integrar a seleção brasileira em alguns jogos, foi campeão pelo América em 1960, campeonato histórico,  pois o primeiro a ser realizado no então recém Estado das Guanabara.
    Em seu excelente e divertido livro “Tijucamérica”, o jornalista José Trajano menciona uma frase atribuída a Pompéia em uma entrevista  gravada um pouco antes de morrer,  para o documentário “Futebol” , de João Moreira Salles e Arthur Fontes, ou seja:
  “O goleiro é quem mais gosta da bola. Todo mundo chuta a bola, só o goleiro abraça.”

sábado, 10 de outubro de 2015

O CENTENÁRIO DE PIPI

                                               
         O casal Serafim Pinto Ribeiro e Maria Aparecida Pinto Ribeiro já tinha três filhos, quando no dia 10 de dezembro de 1915 seu lar foi enriquecido com mais um, que recebeu na pia batismal o mesmo nome de seu progenitor acrescido do “Júnior”.  No entanto, na prática,  o pomposo nome “Serafim Pinto Ribeiro Júnior” , desde logo transformou-se em “Pipi”,  transpondo os limites do círculo familiar para ser assim  conhecido e cantado em prosa e verso nos meios futebolísticos. E Pipi, com seu futebol rápido, com seus gols primorosos encantou  e brilhou nos gramados brasileiros.
   Como todo menino daqueles tempos, seus primeiros contatos com a bola foi na rua, nas chamadas peladas e, embora franzino no físico, sua habilidade logo chamou a atenção, iniciando sua trajetória futebolística no time infantil  do Esporte Clube Ouro-finense.
   Terminando seus estudos secundários em Ouro Fino, Pipi seguiu para Belo Horizonte com o objetivo de ingressar na Faculdade de Direito, o que conseguiu.  No entanto sua habilidade com a bola demonstrada num torneio universitário em que sua faculdade sagrou-se campeã, logo chamou a atenção dos dirigentes do América Mineiro, que o contrataram, iniciando-se assim suas trajetória como jogador de futebol profissional.
   Naquela época, ainda na década de trinta, não havia  o campeonato brasileiro de clubes, porém o campeonato brasileiro de seleções, realizado após os campeonatos estaduais, atraía grande público aos estádios. Ser convocado para a seleção do seu estado era uma glória para qualquer atleta e, embora há pouco tempo atuando num grande clube de Belo Horizonte, Pipi viu seu nome ser convocado para integrar a seleção mineira. 
       Minas não chegou a final, pois fora derrotada pela equipe carioca, mas as atuações de Pipi chamaram a atenção dos grandes clubes do Rio de Janeiro, sendo que o craque mineiro chegou a treinar no Vasco da Gama, recebendo também propostas  do Fluminense e do América do Rio. No entanto, o preço de seu passe valorizava astronomicamente em razão da disputa e acabou sendo vendido para quem pagou mais, ou seja, um time de São Paulo, exatamente o Palmeiras, na época denominado  Palestra Itália.  
        Assim, em 1940 Pipi apresentava-se ao Palmeiras e logo foi escalado como titular para disputar o torneio que inauguraria o Estádio do Pacaembu, ganhando seu primeiro título nas plagas paulistanas, numa partida acirrada contra o eterno rival Corinthians, jogo em que o Palmeiras venceu por 2 a 1 e que bateu o recorde absoluto de público  até então em estádios brasileiros, com mais de 70.000 espectadores.
   Seu futebol continuava em ascensão nas terras paulistanas, tanto que logo seria convocado para defender a Seleção Paulista no Campeonato Brasileiro de 1941. E as atuações de Pipi receberam os maiores elogios da imprensa esportiva, principalmente no jogo final em que a seleção paulista venceu a carioca pelo placar de quatro a dois, sendo que Pipi foi o grande herói, pois fez três gols, todos de cabeça.
     Logo depois, veio nova convocação, agora para a Seleção Brasileira que disputaria o Campeonato Sul Americano realizado em Montevideo, isto  no início de 1942. O Brasil não chegou a final ao perder para a Argentina  por dois a um e  dos sete jogos disputados pela nossa Seleção, Pipi participou de três, dividindo a ponta esquerda com um jogador já veterano, mas famoso na época, Patesko que jogava no Botafogo.  Os donos da casa, Uruguai, sagraram-se campeões ao vencer a Argentina no jogo decisivo.
     A segunda guerra mundial acabou atrapalhando a carreira futebolística do craque ouro-finense, pois certamente Pipi seria convocado para a seleção Brasileira, se a Copa do Mundo que deveria realizar-se em 1942 não fosse cancelada em razão do conflito que assolava a Europa, com sua gama de destruição e morte.
     Jogou no Palmeiras até dezembro de 1943, ocasião em se transferiu para o Fluminense , mas num lance disputado com o goleiro do Flamengo Yustrich, sofreu uma seríssima contusão que o deixou fora dos gramados durante muito tempo. Desiludido, retornou a São Paulo, transferindo-se para o Corinthians onde jogou de 1945 até fevereiro de 1947, quando encerrou sua carreira, retornando a sua querida terra natal, Ouro Fino.
      Pipi, tornou-se um  dos redatores da Gazeta de Ouro Fino, foi um dos fundadores do Montanhês Clube,  pertenceu à Academia Ouro-finense de Letras e Artes, recebeu várias homenagens em sua terra natal, inclusive o laurel “ O Bateador”, outorgado pela Prefeitura de Ouro Fino a personalidades que fizeram de sua vida um exemplo a todos.
     Serafim Pinto Ribeiro Júnior, ou simplesmente  Pipi, faleceu em Ouro Fino no dia  4 de julho de 2001.