Em plena efervescência da segunda guerra, Natal teve uma importância decisiva na ação e abastecimento das tropas aliadas, pois foi na linda cidade praiana nordestina que os norte-americanos construiram o chamado Trampolim da Vitória, ou seja, a base aérea de onde decolavam diariamente centenas de aviões. Enquanto jovens militares vindos da grande nação do norte, em seus dias de folga, transitavam pelas ruas e praias da aprazível capital potiguar, outros tantos militares brasileiros também lá estavam vindos de vários recantos desse nosso imenso país. E entre eles pelos menos um de Ouro Fino, um jovem soldado de nome Décio Lázaro Megale, muito mais conhecido pelo apelido familiar de Lazito.
Bem, para encurtar a conversa, o importante é que num belo dia um Cupido de plantão resolveu flexar, ou melhor, aproximar o soldado ouro-finense de Helena uma linda jovem potiguar, plena de encantos, sonhos e alegrias próprias da juventude. E não deu outra, amor à primeira, à segunda e a todas às vistas subseqüentes. Vale ressaltar que o jovem Lazito com sua pinta de galã fazia o maior sucesso com as morenas praianas daquela plaga nordestina. No entanto, seu amor já pertencia à bela Helena e terminada a guerra, já engajado no Exército, não é que o jovem soldado teve que deixar a aprazível Natal em seguimento à carreira que escolhera, eis que transferido pra outro Rio Grande, mas bem mais longe, pois vizinho do Uruguai e Argentina, o do Sul.
As grandes distâncias nunca foram obstáculos intransponíveis pra quem ama e, embora naquele tempo ninguém dedilhasse os zap-zaps em suas comunicações, havia, no entanto, as cartas, as “Love Letters” as românticas cartas de amor, algumas até perfumadas, que davam o toque nas saudades, plenas de juras de amor eterno. E foi assim que se deu a continuidade do namoro entre Helela e Lazito, até que a imensa distância entre os dois Rio Grandes foi encurtada pela metade, com a mudança da bela Helena para outro Rio, o de Janeiro onde, aliás, já residia um de seus irmãos , o jornalista e poeta Homero Homem de Siqueira Cavalcanti, que se tornaria um dos grandes escritores brasileiros. A partir das plagas cariocas, não demoraria muito para que a jovem Helena acompanhasse a trajetória de vida de seu amor, evidentemente amparada pela imprescindível aliança em seu dedo anelar da mão esquerda e outra invisível em seu coração.
Daí a estória de vida desse casal foi se desenvolvendo, ele dividido entre o trabalho próprio dos militares e o amor da mulher que amava e ela, rainha do lar, ia tecendo com maestria os afazeres da vida doméstica. E a felicidade da família foi se completando com a maternidade e os filhos foram chegando, primeiro o Décio, depois o Múcio, a seguir o Hélio, depois o Telmo e, finalmente, o Artur. Aliás, retiro o finalmente, pois a bela Helena não estava completamente satisfeita, pois ainda faltava uma tão sonhada menina para completar a família que somente no sexto parto chegaria ao nosso vale de lágrimas e sorrisos, a caçulinha Larissa. E a família formada a partir do amor de um soldado, no transcorrer dos tempos foi dando frutos e mais frutos, filhos e netos formados, bem sucedidos e mais recentemente , a fase dos bisnetos.
O Capitão Lazito, assim passou a ser conhecido por todos, ao passar para a reserva lá pelos anos setenta, resolve mudar em termos definitivo para sua terra natal. E em Ouro Fino, ao lado da mulher amada viveu seus derradeiros tempos. E foi também nesse pedaço do Sul de Minas, que Helena Megale passou a ser uma das pessoas mais admiradas, justamente pelo seu espírito participativo e alegre. Em sua longa vida, só cultivou amizades. Procurou incentivar vários segmentos culturais, tais como a Seresta Luiz Rodrigues e, claro, uma de suas marcas registradas, o Carnaval.
Helena foi uma pessoa que transmitia otimismo e alegria. Evidente que também tinha seus momentos de tristeza, de saudade de tempos vividos em companhia de quem tanto amou, mas eram tristezas efêmeras que guardava para si, ao contrário das alegrias, que eram constantes e marcavam sua presença.
O Carnaval ouro-finense deve muito a ela, pois durante anos foi uma de suas grandes incentivadoras. O bloco “Carnaval de Sempre”, com sua bandinha, suas fantasias, sem dúvida, tinha em Helena sua grande líder. E foi justamente quase nos dias dedicados aos festejos de Momo que fechou os olhos para sempre.
Todos nós somos personagens de um imenso teatro que é este “mundo, vasto mundo” como diria o poeta. Os protagonistas entram e saem de cena, mas alguns se incorporam à memória coletiva pela qualidade de sua representação e serão sempre lembrados. Assim será com Helena, a nordestina mais ouro-finense que esse recanto do Sul de Minas já viu. E aqui, neste finzinho de coluna fica uma sugestão às autoridades municipais de Ouro Fino. Homenageá-la com o seu bonito nome “Helena de Siqueira Megale” em um de nossos logradouros públicos.