O Rio Paraíba do Sul mostra-se imponente e
majestoso quando suas águas atravessam a cidade de Campos dos Goytacazes ou,
simplesmente, Campos como é muito mais conhecida. O centro da cidade e os
chamados bairros nobres, alguns ostentando antigos e imponentes casarões,
situam-se numa das margens, enquanto na outra temos a região de Guarus, um
imenso conglomerado de bairros pobres. Assim, o Rio Paraíba, cartão
postal da cidade, também a divide socialmente, pois de um lado temos os
ricos e remediados e do outro os menos afortunados.
Os habitantes de Guarus e das zonas rurais
que circundam a bela cidade compunham a imensa maioria dos que batiam a porta
da Defensoria Pública. Para os habitantes das comunidades pobres do Estado do
Rio de Janeiro, a figura do Defensor Público é a mais relevante entre todas as
que compõe o mundo jurídico. É o primeiro agente público a quem os deserdados
da fortuna procuram para a solução, ou mesmo para a conciliação de seus
conflitos.
Na época dos fatos, janeiro de 1984, o calor era
insuportável na cidade, principalmente na desconfortável sala do velho, mas
imponente Fórum onde ficava a Defensoria das Varas Cíveis. Eu exercia minhas
atividades normais como Defensor Público da 1ª Vara Criminal, porém acumulava
com a 2ª Vara, que estava sem defensor e, ainda por cima, fui designado para
cobrir as férias de um colega que atuava junto a uma das Varas Cíveis. E para
piorar ainda mais a situação, a quase totalidade dos estagiários, estudantes de
direito que colaboravam com a Defensoria, simplesmente desapareceu, pois era
época de férias escolares.
No meio dessa turbulência caótica e calorenta,
eu me esforça para que aquela legião de carentes não ficasse sem atendimento.
Chegava por volta das sete da manhã na Defensoria Cível, distribuía senhas para
quem estivesse na fila e com o auxílio de uma estagiária, procurava atender a
todos, evidentemente com uma certa presteza , pois outros afazeres me
aguardavam nas varas criminais.
Foi assim que , num determinado dia, logo
após atender a última pessoa, já me preparava para sair, quando ele abordou-me
com gestos e olhares súplices. Era um negro magro, humilde, aparentando uns
cinqüenta anos. Implorava que eu lhe atendesse, afirmando que seu caso era
muito sério. Delicadamente, disse-lhe que seria impossível naquele momento, mas
orientei-lhe no sentido de que chegasse cedo no dia seguinte para pegar senha
e, certamente, seria atendido.
No dia seguinte, da minha mesa observei que o mesmo homem
gesticulava e apontava para cima ao falar com a estagiária. De repente, ela
levantou-se, caminhou em minha direção e esforçando-se para prender o riso,
disse: "Doutor Geraldo, o caso deste senhor é muito complicado. É melhor o
senhor mesmo atendê-lo." Quando ele sentou-se em minha frente, começou a
soluçar., cobrindo os olhos com suas mãos calosas de trabalhador. Esperei que
ele se acalmasse e ouvi com uma certa surpresa seu relato, que foi mais ou
menos assim: "Doutor, estou desesperado, pois esta nuvem preta que está
aqui em cima de minha cabeça não me larga nunca". E gesticulava, apontando
para cima onde deveria estar a tal nuvem. "Eu queria que o senhor fizesse
uma petição ao Menino Jesus pedindo que ele tirasse esta nuvem, pois eu não aguento
mais."
Essa consulta inusitada, de fato, pegou-me de
surpresa e notei que a estagiária ainda se esforçava para conter o riso. No
entanto, tomei uma decisão. Olhei para o alto como se estivesse vendo a tal
nuvem e com toda seriedade e convicção respondi ao pobre homem: "De fato
esta nuvem negra deve estar lhe incomodando muito, mas eu vou dar um
jeito".
Anotei
na ficha de atendimento seu nome, endereço e demais dados e logo depois, em sua
presença , ditei para a estagiária uma petição dirigida ao Menino Jesus,
solicitando que retirasse, imediatamente, a nuvem negra que tanto atormentava o
requerente. Despedi-me do pobre homem afirmando que iria despachar com o Menino
Jesus e, certamente, ele atenderia.
Bem, creio que esse foi, talvez, o caso
mais pitoresco de minha atuação na Defensoria Pública e como o assistido não
mais retornou, creio que a sua petição foi devidamente provida e na mais
alta esfera entre todos as instâncias. que é a Divina.