sábado, 12 de setembro de 2015

A NUVEM NEGRA ( Um caso pitoresco)


     O Rio Paraíba do Sul mostra-se imponente e majestoso quando suas águas atravessam a cidade de Campos dos Goytacazes ou, simplesmente, Campos como é muito mais conhecida. O centro da cidade e os chamados bairros nobres, alguns ostentando antigos e imponentes casarões, situam-se numa das margens, enquanto na outra temos a região de Guarus, um imenso conglomerado de bairros pobres.  Assim, o Rio Paraíba, cartão postal da cidade,  também a divide socialmente, pois de um lado temos os ricos e remediados e do outro os menos afortunados.
      Os habitantes de Guarus e das zonas rurais que circundam a bela cidade compunham a imensa maioria dos que batiam a porta da Defensoria Pública. Para os habitantes das comunidades pobres do Estado do Rio de Janeiro, a figura do Defensor Público é a mais relevante entre todas as que compõe o mundo jurídico. É o primeiro agente público a quem os deserdados da fortuna procuram para a solução, ou mesmo para a conciliação de seus conflitos.
    Na época dos fatos, janeiro de 1984, o calor era insuportável na cidade, principalmente na desconfortável sala do velho, mas imponente Fórum onde ficava a Defensoria das Varas Cíveis. Eu exercia minhas atividades normais como Defensor Público da 1ª Vara Criminal, porém acumulava com a 2ª Vara, que estava sem defensor e, ainda por cima, fui designado para cobrir as férias de um colega que atuava junto a uma das Varas Cíveis. E para piorar ainda mais a situação, a quase totalidade dos estagiários, estudantes de direito que colaboravam com a Defensoria, simplesmente desapareceu, pois era época de férias escolares.
     No meio dessa turbulência caótica e calorenta, eu me esforça para que aquela legião de carentes não ficasse sem atendimento. Chegava por volta das sete da manhã na Defensoria Cível, distribuía senhas para quem estivesse na fila e com o auxílio de uma estagiária, procurava atender a todos, evidentemente com uma certa presteza , pois outros afazeres me aguardavam nas varas criminais.
      Foi assim que , num determinado dia, logo após atender a última pessoa, já me preparava para sair, quando ele abordou-me com gestos e olhares súplices. Era um negro magro, humilde, aparentando uns cinqüenta anos. Implorava que eu lhe atendesse, afirmando que seu caso era muito sério. Delicadamente, disse-lhe que seria impossível naquele momento, mas orientei-lhe no sentido de que chegasse cedo no dia seguinte para pegar senha e, certamente, seria atendido.
    No dia seguinte, da minha mesa observei que o mesmo homem gesticulava e apontava para cima ao falar com a estagiária. De repente, ela levantou-se, caminhou em minha direção e esforçando-se para prender o riso, disse: "Doutor Geraldo, o caso deste senhor é muito complicado. É melhor o senhor mesmo atendê-lo." Quando ele sentou-se em minha frente, começou a soluçar., cobrindo os olhos com suas mãos calosas de trabalhador. Esperei que ele se acalmasse e ouvi com uma certa surpresa seu relato, que foi mais ou menos assim: "Doutor, estou desesperado, pois esta nuvem preta que está aqui em cima de minha cabeça não me larga nunca". E gesticulava, apontando para cima onde deveria estar a tal nuvem. "Eu queria que o senhor fizesse uma petição ao Menino Jesus pedindo que ele tirasse esta nuvem, pois eu não aguento mais."
     Essa consulta inusitada, de fato, pegou-me de surpresa e notei que a estagiária ainda se esforçava para conter o riso. No entanto, tomei uma decisão. Olhei para o alto como se estivesse vendo a tal nuvem e com toda seriedade e convicção respondi ao pobre homem: "De fato esta nuvem negra deve estar lhe incomodando muito, mas eu vou dar um jeito".          
   Anotei na ficha de atendimento seu nome, endereço e demais dados e logo depois, em sua presença , ditei para a estagiária uma petição dirigida ao Menino Jesus, solicitando que retirasse, imediatamente, a nuvem negra que tanto atormentava o requerente. Despedi-me do pobre homem afirmando que iria despachar com o Menino Jesus e, certamente, ele atenderia.
     Bem, creio que esse foi, talvez, o caso mais pitoresco de minha atuação na Defensoria Pública e como o assistido não mais retornou, creio que a sua petição foi devidamente provida e  na mais alta esfera entre todos as instâncias. que é a Divina.