Um
dos principais princípios do estado democrático repousa na liberdade de
opinião. Assim, cada um de nós temos a liberdade e expressar o que pensamos,
sejam eles de caráter político, religioso ou lá o que for, pois se assim não
fosse não viveríamos numa democracia. Nos dias atuais, as redes sociais
transformaram-se na ferramenta mais
ampla e democrática para a exposição e circulação de ideias.
Na verdade elas funcionam de
forma bem mais ampla e democrática do
que a própria imprensa tradicional, pois sua amplitude está nos dedos de
qualquer pessoa ao digitar sua opinião e sua liberdade de expressão não está
condicionada à linha de opinião dos órgãos da imprensa, principalmente da
chamada grande imprensa.
O jornal em que escrevo, a Gazeta de Ouro
Fino, um pequeno e centenário jornal de uma pequena cidade do interior de Minas
Gerais, graças ao espírito democrático de seus dirigentes, respeita a liberdade
de opinião de seus redatores e colaboradores. É um jornal coerente com a
liberdade de expressão dos dias em que vivemos, mas é uma exceção se fizermos
uma comparação com os grandes veículos da imprensa falada, televisada ou
impressa, em que seus redatores ficam condicionados a se manifestarem apenas de
acordo com o pensamento político de seus dirigentes.
De
qualquer forma, mesmo com essas ressalvas, não se pode negar que no Brasil há liberdade de imprensa,
acrescida da mais ampla liberdade de
opinião através da Internet. No entanto,
embora haja uma tradição libertária em relação à imprensa que vem desde os
tempos do império, nem sempre foi assim, pois num passado recente e ainda na
memória de muita gente, ela foi sufocada
através de atos discricionários, tais como,
a presença diária de censores nas redações, proibição de veicular
determinadas notícias e até prisões, torturas e morte de jornalistas, a
exemplo do ocorrido com jornalista Vladimir Herzog. Naquela época ainda não
existia a Internet e os acontecimentos que não se podiam publicar eram varridos
para debaixo do tapete a espera de que ventos mais favoráveis à democracia
soprassem e removessem o lixo autoritário, o que de fato ocorreu. Não se pode eternizar um estado totalitário,
pois o desejo do homem em busca da liberdade em todos os seus matizes, inclusive
o de expressão, representa um aspiração natural, intrínseca ao ser humano.
Qualquer regime ditatorial, sejam eles de
esquerda ou de direita, e mesmo de inspiração religiosa ou de castas como se vê
em países do Oriente Médio, mostra-se ofensivo à dignidade do ser humano, ainda
que no seu nascedouro representem uma aspiração legítima do povo. No Brasil, inconteste que o golpe
militar deflagrado em 31 de março de 1964,
golpe que afastou o presidente João Goulart, recebeu grande apoio popular, em
especial por parte considerável da classe média, receosa com os rumos
esquerdistas do então governo. No
entanto, o apoio inicial foi diminuindo, à medida que o governo não mais
disfarçava sua face autoritária, até chegar à ditadura escancarada do início
dos anos setenta, em que a repressão aos que ousavam afrontá-la chegou às raias
do absurdo inaceitável, a exemplo da Casa da Morte de Petrópolis, presídio
clandestino, em que dezenas de pessoas
foram torturadas e executadas.
Recentemente, um oficial do exército que
assumiu pública e corajosamente sua condição de torturador, afirmou perante a
Comissão da Verdade que na referida Casa da Morte, dezenas de pessoas foram
mortas, tiveram seus dedos cortados e dentes arrancados para impedir a
identificação, suas vísceras retiradas para que
o corpo não boiasse e atirados
num rio que passava nas proximidades da mencionada casa. Afirmou ainda que recebia ordens de seus
superiores e que eles, os generais, tinham pleno conhecimento do que ocorria na
referida casa de suplício.
Faço essas considerações num momento em que antevejo em certas
mensagens que circulam nas redes sociais, não apenas um certo saudosismo em
relação a essa época, mas também um desejo de
retornar aos tempos ditatoriais. Essas pessoas, a maioria de jovens que
nem viveram os tempos do autoritarismo militar, repassam mensagens de
loas à ditadura e críticas à democracia,
justamente aproveitando a liberdade de expressão que hoje usufruímos. Criticam
a democracia, mas a usam como veículo de suas criticas.
Não descarto a certeza de que viver num
regime democrático tem um preço, talvez bem maior do que viver num regime
ditatorial. No entanto o direito de criticar, de denunciar, de escolher seus
representantes através do voto, de não ser punido, torturado ou morto por
expressar suas convicções, ou seja, o direito de sentir-se livre, a meu ver, representa
uma das maiores conquistas do ser
humano. Retrocesso e tortura, nunca mais.