A adolescência é a fase das novidades. Os acontecimentos, as experiências, as alegrias e até mesmo as decepções que vão nos marcando pela vida a fora, naquela idade considerada azul pelos poetas, batem diferente na sensibilidade de cada um. Assim a reunião da “nossa turma” que ocorria aos sábados na parte de cima de um pequeno bar situado na Rua da Bahia , o Bar Caçula, tinha uma conotação especial para todos os que dela participavam.
Como em qualquer grupo que se forma invariavelmente surge uma liderança, a nossa era exercida pelo Helio Moraes, um rapaz um pouco mais velho do que os demais componentes da turma. Estudante da Faculdade de Direito , filho de um conhecido desembargador de Minas Gerais, rosto redondo em desconformidade com seu corpo um tanto franzino, olhos esverdeados e cabelos sempre aparados , podia-se afirmar que o nosso líder era um rapaz bonito . Irradiava para todos uma grande simpatia através de um sorriso constante onde pontificam uns dentes grandes e bem cuidados. E a voz do líder sobressaía ao puxar com entusiasmo o conhecido “Oh que belos companheiros, como viram tão ligeiro ,se és covarde saia da mesa, que a nossa empresa, requer valor . Primeira bateria, vira, vira, vira.....” . E logo depois da primeira bateria, que era sempre exercida pelo próprio Helio, cada um de nós ia virando goela abaixo, pois ninguém queria ser covarde, o copo duplo de samba-em-berlim ou de gim com água tônica. De vez em quando surgia um litro de legítimo “whisky” escocês, isto quando um outro componente da turma, o Renato Figueiredo, mais conhecido como Renato Javali em razão da proeminência de sua arcada dentária superior, surgia vitorioso empunhando a preciosa bebida surrupiada da adega paterna. Esclareça-se que o Renato, por ser filho de um diretor de conhecido banco mineiro, era considerado o riquinho da turma.
A “nossa turma” tinha uma característica bem marcante que a fez conhecida na BH dos anos dourados. Nós não éramos briguentos, não fazíamos arruaças e , apesar do nosso “vira-vira” dos sábados à noite, também não éramos beberrões. No entanto, tínhamos um objetivo que, invariavelmente, executávamos logo terminada nossa reunião semanal do Bar Caçula : ir a um baile ou a uma grande festa familiar, sempre entrando de penetra , pois como convidados ou pagando , não havia a menor graça . A escolha do local era discutida na reunião e as formas de se penetrar eram as mais incríveis e inusitadas . Subíamos em árvores até a janela de acesso ao objetivo, pulávamos às vezes mais de um muro, caindo em vários quintais até chegar ao local festivo, escalávamos marquises , passávamos de uma sacada para outra, enfim , usávamos qualquer recurso que nos levasse ao objetivo traçado. E sempre, sob o comando firme de nosso líder, agíamos em solidariedade, pois , de acordo com nossas regras, ninguém deveria ficar de fora .
Belo Horizonte de minha infância, adolescência e mocidade era uma cidade que tinha um sabor , uma atração tão especial sobre minha sensibilidade florescente que hoje , tantos anos passados, sua presença continua viva como se o tempo houvesse estagnado . Na atualidade, quando ocasionalmente visito a bela capital mineira, por vezes, me vejo perdido na turbulência de suas largas avenidas à procura de um rosto amigo , de um fragmento , de uma saudade materializada, que me devolva parte de um tempo tão descompromissado e feliz.
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