domingo, 18 de maio de 2008

UM TERRAÇO ENCANTADO

    O lugar era um terraço encantado, melhor dizendo, a cobertura de um apartamento na Avenida Bartolomeu Mitre, bairro do Leblon, Cidade Maravilhosa. Anos dourados, quase no final da década de cinqüenta, rapazes e moças, muito gim com água tônica, violões, cantorias a valer. Às vezes, a noitada terminava na praia vendo o sol nascer, num tempo em que ainda se podia fazer tais programas.
Vera, a colega de faculdade que nos brindava com seu terraço encantado, tinha um sorriso triste e carregava a frustração de ter sido aprovada no concurso que lhe abriria a porta para sua vocação, a diplomacia, mas, barrada num incompreensível teste psicológico. Eu não diria que era uma moça feia, mas estava longe, muito longe de ser considerada bonita. Nessa época teria uns vinte e cinco anos, um tanto alta para os padrões femininos, corpo atlético em contraste com a doçura de seus gestos e de sua voz.
     Tornamo-nos amigos e passei a freqüentar sua casa, ou melhor, seu terraço, mesmo fora das reuniões noturnas. A desculpa era o estudo, mas acabávamos invariavelmente curtindo Aznavour ainda no início de carreira regado a muito gim-tônico.
     Madalena, sua mãe rica e viúva, não escondia sua preocupação com as libações alcoólicas da filha única, e procurava nos freqüentadores mais assíduos do “Chez Nous”, o nome que batizamos o terraço, algum cúmplice na tentativa de afastá-la do copo. Esforço inútil, pois além do cigarro, sua marca registrada era o copo de gim-tônico, quase uma extensão de sua mão direita.
     E as músicas? Além do indefectível Charles Aznavour, em nossas reuniões curtíamos Piaff, além das brasileiríssimas Dolores Duran e Elizete Cardoso. Nas cantorias, tal qual em inúmeros outros apartamentos da Zona Sul carioca, predominavam os acordes sincopados da Bossa Nova, ainda em seus primórdios. Lembro-me bem de um jovem diplomata, amigo de nossa anfitriã, que dedilhava com maestria uma canção de sua lavra que se tornaria uma espécie de hino para os jovens freqüentadores do terraço. Tanto a música como a letra ficaram impregnadas nos porões de minha memória, mesmo passados quase cinqüenta anos: “Chez nous, nous irons toujours/ veio a lua no telhado/ mas o único embaraço / é saber como sair..../ Bebendo gim, batendo papo/ Madalena lá em baixo dando bronca/ Nous irons toujours...”
     Bem, para encurtar a conversa, mesmo porque coluna de jornal tem tamanho programado, o passar impiedoso do tempo, carrasco implacável das ilusões da juventude encarregou-se de desfazer a turma e cada um tomou seu destino. Nunca mais vi minha triste amiga Vera, mas tomei conhecimento de sua existência posterior através da imprensa. A primeira vez, pela televisão quando focalizaram um mulher magérrima, desfigurada pelo uso excessivo de drogas, equilibrando-se no beiral de um edifício em Ipanema, pronta para o salto mortal. Foi salva pelos bombeiros e encaminhada a uma clínica psiquiátrica. E a segunda vez, bem mais recente, nos anúncios fúnebres do jornal, “ O Globo”, em que sua mãe, convidava parentes e amigos para a missa de 7º dia. Compareci à Igreja de Santa Mônica, mas poucas pessoas lá estavam e, dos freqüentadores do terraço, apenas uma de nome Maria Helena, amiga até os últimos dias de minha antiga amiga. Madalena lá estava, ainda rija, apesar dos seus oitenta e tantos anos, mas imensamente triste e frustrada com a morte da filha. Vera contraíra um câncer galopante, justamente quando a vida lhe parecia mais prazerosa, pois livrara-se do alcoolismo e da dependência das drogas e trabalhava com dedicação no conhecido estabelecimento de ensino de sua família .
      Saí da igreja conversando com Maria Helena e não deixamos de recordar aqueles tempos da juventude e mesmo cantar baixinho: “Chez nous, nous irons toujours...” .

Um comentário:

Marcela Castro disse...

Pai, estou sempre observando suas crônicas e, como gosto de lê-las! Uma melhor que as outras! Muito bom conhecer as histórias de sua vida...
Bjsss
Marcela