Há escritores férteis em suas produções literárias, que passam a vida inteira escrevendo, mas o árduo labor não encontra receptividade no público, na crítica ou nos meios de comunicação. Outros, com escassa produção, às vezes com um único livro alcançam incrível popularidade, tornando-se importante referência entre os grandes de sua época. O escritor norte-americano J.B.Salinger é um desses, graças ao seu único romance, “O Apanhador no Campo de Centeio”, publicado em primeira edição no início da década de 50. Este livro, desde o impacto de seu lançamento, vem conquistando muitos leitores e seu autor passou a ser reconhecido internacionalmente como um dos grandes nomes da literatura de ficção norte-americana do século passado.
O interessante na obra de Salinger é que o tema abordado é dos mais banais. Trata-se de uma narrativa feita na primeira pessoa por um adolescente problemático, que após ser expulso da escola por ter sido reprovado em quase todas as matérias, passa alguns dias em Nova Iorque , antes de retornar a casa. No entanto, a linguagem própria dos jovens, a sexualidade tratada sem disfarces, a despreocupação com o futuro, a crítica ao comportamento e o modo de pensar, principalmente dos mais velhos, a rebeldia, e outras facetas da juventude, fizeram do livro um ícone de influências para várias gerações.
No início da década de 50 eu também era um adolescente. Não li o livro de Salinger naquela época, nem sofri qualquer influência relacionada à mencionada obra, mas, hoje, procurando fazer uma auto-análise, ou mesmo, uma autocrítica, creio que em certos aspectos de minha adolescência, como na de muitos e muitos outros jovens de várias gerações, podem-se identificar alguns descritos no referido personagem. No entanto, há dois, um que hoje eu classificaria como negativo e outro como altamente positivo, em que vislumbro no adolescente que eu fui, situações muito próximas das enfocadas no jovem personagem de Salinger.
O jovem narrado na mencionada obra tinha verdadeira ojeriza por estudar qualquer matéria que não fosse o Inglês, o que lhe custou muitas reprovações escolares. É a famosa vadiagem que também me pegou e me custou um atraso nos estudos de, pelo menos, uns quatro anos. É o aspecto que considero o mais negativo de toda minha adolescência.
Já o positivo, tal qual o personagem do referido livro, é que desde criança, adquiri o hábito de ler e ler muito. Iniciei pelos infantis de Monteiro Lobato e mais tarde, mesmo a par de minha malandragem escolar, comecei a me interessar por romances. Li e me emocionei com escritores brasileiros do romantismo, tais como José de Alencar, principalmente no “O Guarani”. Vibrei e muito com os de Machado de Assis e Eça de Queiroz. Nessa época passei também a ler os romances de Jorge Amado, principalmente os focados na influência marxista, tais como, os três volumes de “Subterrâneos da Liberdade” e “O Cavaleiro da Esperança”, além de “Mar Morto”, “ Capitães de Areia”, “Seara Vermelha”, “Terras do Sem Fim” e outros, passando também por romancistas alienígenas, em especial o da moda daqueles tempos, A.J.Cronin. Assim, acabei tornando-me um leitor compulsivo, hábito que me acompanha pela vida inteira.
Passada a fase da ojeriza aos estudos, sem dúvida, o hábito da leitura tornou minha formação acadêmica e profissional muito mais fácil e prazerosa.Analisando o comportamento e as preferências da juventude atual, sem dúvida, a leitura de livros encontra sérios concorrentes nos meios de comunicação e nos avanços da tecnologia. A Internet, onde tudo se encontra já mastigado, seja para o bem ou para o mal, principalmente no seio da juventude, vem progressivamente substituindo o milenar hábito da leitura de livros. Inquestionável que tal preferência oferece aspectos dos mais positivos, principalmente quanto à gama imensa de informações disponibilizadas com um simples toque num teclado.No entanto, será que num futuro próximo ou mesmo remoto, o livro, este amigo inseparável de todas as horas, desaparecerá na voragem das conquista da tecnologia? Creio que não, mas a resposta correta o tempo dirá.
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