terça-feira, 17 de setembro de 2013

A RUA ISIDRO DE FIGUEIREDO

 
     O ano era o de 1936 e meu pai, sem dúvida um tanto frustrado com a carência de melhores perspectivas profissionais em sua odontologia na acanhada Ouro Fino de então, resolve mudar para uma cidade grande. Rio de Janeiro, a charmosa e tão decantada Cidade Maravilhosa, na época, além de ser a capital, era também a maior metrópole de nosso país e a que mais atraía migrantes em busca de oportunidades de trabalho. Assim, meu pai deixou em Ouro Fino minha mãe e os três filhos, pois em junho daquele ano a família era acrescida de pelo nascimento de Carmen Sylvia,  e partiu prometendo retornar em poucos meses para levar a família, tão logo conseguisse uma casa condigna. Mas o tempo passava e os poucos meses prometidos já não era tão poucos, até que minha mãe perdeu a paciência, já em meados de 1937 e exigiu uma definição rápida para o problema que a afligia. 
         Foi assim que, sem conseguir a casa condigna prometida, meu pai retornou a Ouro Fino para nos buscar e fomos todos para o Rio de Janeiro. Nossa primeira casa, na verdade, era uma casa de pensão, habitação muito comum no Rio de antigamente, bem próxima das brancas areias de Copacabana. E foi justamente essas areias brancas que correspondem às minhas primeiras recordações da Cidade Maravilhosa. Ainda não havia completado meus três anos, mas a praia , as ondas quebrando e espalhando suas espumas e os toscos castelos que eu e meu irmão Luiz Antonio construíamos na areia, permanecem tangíveis em meu baú de recordações pretéritas.
      Nosso segundo lar foi, na verdade, um cômodo de uma modesta casa na Rua Isidro de Figueiredo, bem próximo ao Largo do Maracanã. Era uma casa antiga, geminada com outra à direita e ocupávamos um amplo quarto já mobiliado com uma grande janela que dava direto para a calçada. Nessa segunda habitação carioca, em que permanecemos durante alguns meses, minha memória já resgata várias lembranças que permanecem vívidas até os dias atuais. Além de nossa família, moravam na casa os nossos senhorios, um casal de velhinhos, Seu Pacífico e Dona Benta, além de uma filha de nome Teresa, que era quem geria de fato a habitação.
        A rua era pequena, pois tinha apenas um quarteirão que começava numa via bem movimentada, a Rua São Francisco Xavier e terminava bem em frente a um hipódromo, na época já desativado, o antigo Derby Clube, onde hoje está edificado o majestoso Estádio do Maracanã. E foi na Rua Isidro de Figueiredo que meus pais construíram uma das mais sólidas amizades com uma família vizinha, amizade que perdurou durante muitos anos. E essa grande e fraterna amizade nasceu justamente com os que residiam na casa geminada à nossa, pertencente a um advogado, Doutor Emir Silveira, casado com uma senhora portuguesa, Dona Maria, e que, na época tinham três filhos, todos com nomes indígenas, Irimá, o primogênito, seguido de Guaracy e Moema. Iacy, a caçula, nasceria alguns meses depois do trágico falecimento de seu pai, vítima de um acidente de trânsito.
       A amizade com essa família foi tão sólida, que em muitas ocasiões, em nossa infância e adolescência, eu e Luiz Antonio, passávamos dias hospedados naquela casa tão acolhedora e da qual guardo muitas lembranças, pois cultivamos uma grande amizade com todos, principalmente com irmãos Irimá, da mesma idade de meu irmão e Guaracy, um ano a menos do que eu. Dona Maria foi um exemplo de mulher guerreira, dedicada ao lar e à educação dos filhos, pois ficando viúva com quatro filhos de tenra idade e lutando com as dificuldades advindas da trágica e inesperada morte de seu marido, conseguiu educar e formar todos os filhos, Irimá, em engenharia, Guaracy, em advocacia, e as duas filhas, no magistério.
       Embora a permanência de nossa família na Rua Isidro de Figueiredo tenha sido muito breve, graças à amizade com a família Silveira, essa rua e o próprio bairro do Maracanã tornou-se uma referência importante em minhas recordações, pois mesmo não mais residindo ali, continuamos as frequentá-lo ainda por muitos anos. A rua, com seu antigo casario, o cinema Maracanã, palco de tantos filmes que embeveciam minha curiosidade infantil, a casa de Dona Maria, a criançada e tantas outras coisas ligadas ao bairro, correspondem a referências importantes em minha vida e bem mais tarde, ao me tornar assíduo no Estádio do Maracanã, sempre escolhia o trajeto que me transportava aos tempos de minha infância e que ainda preenche boa parte de meu baú de recordações.

 

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