O ano era o de 1940 e, parodiando viagens anteriores, lá íamos nós, minha mãe e os quatro filhos de então rumo a Belo Horizonte,refúgio de minhas reminiscências dos anos azuis da infância e adolescência. As dezesseis horas no interior de uma antiga e lerda Maria Fumaça, longe de ser uma provação, tornara-se um encantamento para minha sensibilidade infantil. Adorava o ritmo cadenciado e os solavancos dos vagões, os apitos e mesmo a fumaça enjoativa que invadia a composição quando os vários túneis do trajeto eram atravessados. Minha admiração pelas viagens ferroviárias se estenderia ainda por muitos anos, transferindo- se na idade adulta para os confortáveis trens de aço Vera Cruz e Santa Cruz que faziam as linhas do Rio para Belo Horizonte e São Paulo. Não renego minha saudade de um meio de transporte que nunca deveria ter deixado de existir, principalmente num país tão grande como o Brasil.
Nos tempos de criança, fizemos várias
viagens ferroviárias e Belo Horizonte, antes e depois da de 1940, pois na
capital mineira residiam meus avós maternos e nossa presença na bela capital era constante,
principalmente nos fins e meados de cada ano. Meu pai raramente participava desses
deslocamentos, em razão de seu trabalho, mas minha mãe, às vezes com uma
criança no colo e outra na barriga e sempre acompanhado de outros filhos, era
presença constante naqueles tempos em
que a ferrovia era o principal meio de
transporte.
No entanto, a viagem de 1940, marcou-me por
uma circunstância que iria influenciar minha vida inteira, o conhecimento e
início de uma grande amizade com um menino também hospedado em casa de nossos
avós comuns. De fato, ao chegarmos em Belo Horizonte deparamos com uma família
que eu ainda não conhecia: meu tio Benedicto, irmão de minha mãe que até então residia em Campinas, sua então esposa e os
dois filhos, Sérgio e Sônia. Meu querido tio Benedicto ainda iria casar-se em
segunda núpcias, gerando uma nova família e mais cinco filhos.
Sérgio,
um ano mais velho do que meu irmão Luiz Antonio e dois anos mais do que eu, logo
tornou-se uma espécie de líder de nossas influências e brincadeiras. Nossas
idas a BH dos tempos infantis e adolescentes tornaram-se mais prazerosas,
graças à amizade com nosso primo. Eu, Luiz Antonio e Sérgio formávamos um trio
inseparável que se solidificou ainda mais, quando, ainda adolescente, meu primo
foi morar em nossa casa no Rio de Janeiro.
Foi, portanto, mais um irmão que se agregou à nossa família.
Bem mais tarde, funcionário de Prefeitura de
Belo Horizonte, Sérgio passou algum tempo em nossa casa no Rio de Janeiro,
bairro de Botafogo, onde fora fazer um curso na Fundação Getúlio Vargas.
Coincidentemente, lá também estava hospedada uma jovem prima de minha mãe, a
meiga ouro-finense Mabel e desse encontro deu-se o rastilho de um amor que
geraria uma grande família em todos os sentidos.
Há alguns dias atrás, num domingo, saía eu de
uma sessão de cinema no Rio de Janeiro quando lá pelas dez da noite recebi a
notícia do falecimento do meu querido primo em Belo Horizonte. Ainda consegui
chegar a tempo para o sepultamento e vê-lo sereno, liberto do sofrimento que o
fustigou nos últimos tempos. Antonio Sérgio Carvalho Pimentel, ou simplesmente
Sérgio, deixou para todos os que o conheceram e tiveram o privilégio da sua
convivência e amizade um exemplo de superação, de conquistas, de realizações e,
principalmente, de um grande amor e dedicação à bela família que construiu.
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