Quero ressaltar dois aspectos ligados a Belo Horizonte de minha infância . O primeiro prende-se a viagem que , pelo menos , duas vezes ao ano fazíamos à capital mineira. Morávamos no Rio de Janeiro e , principalmente nos períodos de férias escolares , lá íamos nós , mamãe e a filharada enfrentar a longa viagem de trem. Não sei porque , mas eu era uma criança que tinha uma atração muito especial pelas trens que desbravavam o Brasil e o mundo , sendo o principal meio de transporte na primeira metade do século passado. As grandes locomotivas , sejam elas as antigas “Maria Fumaça”, ou já no final da década de quarenta , as imponentes “General Electric”, movidas alternativamente a eletricidade ou óleo diesel , mexiam com minha sensibilidade de menino curioso . Em contraste com alguns membros de minha família, que detestavam a viagem, principalmente minha irmã Carmen Sylvia que enjoava o tempo inteiro, eu curtia prazerosamente todo o seu transcurso. Conhecia todas as paradas do trajeto , adorava a hora de ir ao restaurante, puxava conversa com outros passageiros, apreciava até a voz monótona e cadenciada do chefe do trem , quando percorria todos os vagões para anunciar a estação que se avizinhava : “Juiiiz de Fooora”, “Barrrbacena”.
O outro , era a casa e a presença marcante em meus tempos de criança de meu tio João Lúcio . Um dos escritores mineiros mais conhecidos daquela época , casado com uma das irmãs de minha avó materna , a minha sempre querida e nunca esquecida Tia Luíza , o ouro-finense João Lúcio Brandão tinha uma característica pessoal que o tornava extremamente querido por mim . Ele brincava, conversava, mostrava gravuras, lia textos infantis, enfim dava atenção a todas as crianças que freqüentavam sua casa.
Morava numa residência imponente no bairro Funcionários, ainda hoje existente, embora bastante modificada em sua estrutura e aspecto original . Era uma casa de dois pavimentos , centrada em um grande terreno , pois se alastrava por mais da metade do quarteirão que a circundavam. Em seu quintal havia espaço para horta , galinheiro, um caramanchão coberto com parreira e inúmeras árvores frutíferas. Recordo-me com clareza da parte interna da casa , de todos os seus cômodos e até da disposição de seus móveis.
O lugar que eu mais gostava e comparecia assiduamente era a grande sala de frente que dava para a Avenida Brasil , ocupada pelo escritório e biblioteca . Seus móveis eram em estilo colonial , envernizados em coloração escura. Suas estantes eram guarnecidas por grande quantidade de livros encadernados uniformemente, havia ainda várias peças decorativas em que pontificavam imitações de caveiras . Foi nesse local, maravilhoso para minha sensibilidade infantil, que meu Tio João Lúcio , pacientemente, mostrava-me gravuras, pedia que eu lesse trechos de seus livros infantis, contava-me histórias e procurava interessar-me pelo mundo das letras.
Bem mais tarde , já professor de Português , li seus romances e pude aquilatar o grande valor literário desse escritor , sem dúvida, uma das maiores expressões de nossa literatura regionalista , infelizmente esquecido nos dias atuais.
Eu tinha uns treze ou quatorze anos quando vi meu tio pela última vez. Foi no Rio de Janeiro , num quarto da Casa de Saúde São José , onde se recuperava de uma cirurgia no pulmão feita há alguns dias atrás, tentativa frustrada de estancar uma doença insidiosa . Lembro-me perfeitamente até de sua voz, quando me chamou para junto de sua cama e disse pausadamente : “Dessa vez estão me dando uma surra . ”
Um comentário:
Paizinho, antes de tudo parabéns pelo blog, e, vc é muito bom nisso!!! Seus contos têm a capacidade de fazer com que nós, leitores, que nem participamos de sua infância, visualizemos toda a história e o ambiente narrado como se fosse com a gente... É uma viagem no tempo para nós tb! Parabéns pela excelente escrita e pelas histórias!! Tb queria conhecer a Belo Horizonte de sua infância (e o tio escritor, andar de trem, etc...) Bjs.
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