terça-feira, 8 de junho de 2010

ÁGUAS VIRTUOSAS DE LAMBARI

     Recentemente estive com minha esposa na linda estância hidromineral de Lambari. Cidade pequena cercada de montanhas verdes que ainda ostenta resquícios de um passado de fausto representado, principalmente, pelo belo e imponente prédio que seria um cassino, edificado às margens do Lago Guanabara, construídos graças ao espírito incrivelmente empreendedor de seu primeiro prefeito, o engenheiro Américo Werneck. Nomeado em 1909 pelo então presidente de Minas Wenceslau Braz para governar o recém emancipado município de Águas Virtuosas, Werneck , que já fora prefeito de Belo Horizonte, ambicionava transformá-lo numa versão brasileira da então famosa estância hidromineral, Águas de Vick, localizada na França, recebendo do governo mineiro imenso suporte financeiro para o ousado empreendimento.
      Além do lago onde foi colocado até uma gôndola importada de Veneza, o lindo e imponente prédio onde Werneck planejava instalar um cassino foi construído com requintes e, evidentemente, gastos até então inimagináveis para uma pequena cidade do interior de Minas. Para se ter uma idéia da grandiosidade do empreendimento, basta esclarecer que todos os materiais de construção foram importados da Europa e da Ásia. Assim, a madeira era o famoso pinho de Riga, vindo da Rússia; as telhas eram francesas; os azulejos e peças sanitárias vieram de Portugal e Inglaterra e, até mesmo os tijolos, cimento pedras, pisos e forros provieram de vários países asiáticos.
      A inauguração do cassino, em 1912, correspondeu a uma festa das Mil e Uma Noite, com champanhe e vinhos franceses jorrando à vontade, bufê caríssimo, casacas, cartolas e vestidos longos circulando pelos salões ricamente ornamentados, graças à presença de centenas de ilustres convidados vindos, principalmente, do Rio de Janeiro, sem contar as do Presidente da República, Hermes da Fonseca e do Presidente de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão. Do lado de fora, a população interiorana da pequena cidade assistia embasbacada a movimentação inusitada. Américo Werneck, o anfitrião, circulava orgulhoso com sua criação, ainda mais quando os fogos de artifícios, a gôndola ricamente ornamentada e o belíssimo farol arrancavam gritos de admiração do público.
     Talvez o único convidado que não acompanhou a euforia reinante no ambiente foi o governador de Minas. Retornando a Belo Horizonte, o austero Júlio Bueno Brandão chamou ao palácio o advogado Antonio Pimentel Júnior e, segundo a memória familiar, visivelmente preocupado, teria dito as seguintes palavras.: “Vou ter que demitir o Werneck da Prefeitura de Águas Virtuosas, pois nesse ritmo ele não vai quebrar apenas seu município, mas Minas Gerais, e até mesmo o Brasil” . E de fato, demitiu Américo Werneck nomeando para seu lugar o Doutor Pimentel com a recomendação de economizar o máximo e enxugar as finanças do município.
     Em Lambari, eu e minha esposa, percorremos a pé as ruas do centro da cidade e ao lado direito de sua imponente igreja matriz, vejo a placa indicativa do nome de uma pequena rua de ladeira íngreme, “Rua Doutor Antonio Pimentel Júnior”. Aproveitei para tirar uma foto junto à placa, esclarecendo aos leitores que o homenageado com o nome da rua foi meu avô materno, o prefeito que substituiu Américo Werneck e que governou a cidade durante vários anos na segunda década do século passado. Meus contatos com ele distam há mais de sessenta anos, mas guardo nos escaninhos de minhas recordações, seu olhar de bondade, sua paciência com os netos e até mesmo resquícios de sua voz.
    Bem, para terminar essas digressões, o tal cassino nunca chegou a funcionar e embora tenha um repositório riquíssimo de águas minerais, o município de Águas Virtuosas nunca chegou a ser considerada uma Vick sul-americana, tendo mudado seu nome para Lambari, vocábulo que significa peixe pequeno, em 1930.
Américo Werneck, o homem que sonhou alto, deixou para a posteridade uma cidade belíssima, embora mal cuidada atualmente, e sua marca de visionário ousado. Mas o que seria do mundo sem a ousadia dos visionários?

Um comentário:

Flora Maria disse...

Eu e meu marido estivemos ontem e hoje em Lambari, num "turismo nostalgia" pois ele visitou a cidade em 1960, com 16 anos, e resolvemos voltar lá para rever lugares de sua juventude.
A história do cassino é instigante e é de se lamentar - e muito ! - o abandono em que ele está. Como disse meu marido, Lambari está judiada...

Parabéns pelo blog, muito bom !