sábado, 20 de setembro de 2014

CHICO TURCO ( Um conto de Geraldo Affonso)


  Chico Turco, mascate de profissão e proseador incorrigível, praticava seu ofício por esses sertões à  fora, em especial  no interiorzão de São Paulo e Sul de Minas. Figura estranha esse turco que, na verdade, nem turco era, pois nascera no Líbano. Com suas botas vermelhas, calça culote estampada, lenço colorido em torno do pescoço, óculos redondos de coloração indefinível, paletó quadriculado puxando a um esverdeado escuro,  mais parecia  estar preparado para um baile à fantasia, ao saltar na estação ferroviária de Ouro Fino  naquele longínquo ano  da década de quarenta do século passado.  Chico era extravagante em suas roupas, mas extremamente simpático e afável no contato com as pessoas. A forma inusitada de suas vestimentas, segundo ele mesmo, era o chamariz para os produtos que vendia, sempre com muita conversa, entremeada por anedotas e  causos.
      Em suas viagens sempre levava um baú e uma mala grande, recheados de mercadorias, além de uma menor onde acondicionava seus petrechos de viagem.  O baú nem saía das estações de trem,  praticamente o único meio de transporte que Chico utilizava. Ficava no maleiro ou nas salas dos agentes e servia como uma espécie de depósito de suas bugigangas. Vendia produtos dos mais variados, geralmente contrabandeados. Eram relógios de pulso, despertadores, bibelôs, cosméticos, lingeries, quimonos japoneses, isqueiros americanos, canetas, meias de nylon, calcinhas, sutiãs, combinações, óculos escuros, baralhos e outros objetos. Vendia tudo à prestação e assim sua passagem pelas cidades eram mensais, em trajetos mais ou menos repetidos. Mascateava de casa em casa  e graças a sua simpática conversa, não pagava café da manhã,  almoço, jantar ou hotel,  pois em todas as cidades, sua presença era bem-vinda  e sua prosa sempre encontrava uma platéia extasiada. Assim,  os convites para refeições e pouso nunca lhe faltaram. Em cada cidade já sabia, mais ou menos, onde comia e onde dormia.
    No Sul de Minas, Ouro Fino era uma de  suas praças prediletas e, invariavelmente, após suas andanças pela cidade, sempre jantava e pousava na casa de Dona Laura Mesquita, mulher que orçava cinquenta e muitos  anos, um tanto gorda, mas ainda guardando os resquícios de uma beleza tão decantada num passado não muito longínquo. Era viúva sem filhos, muito extrovertida, caçula de uma prole de dez irmãos. Sua casa, herança de seu falecido, era uma das mais imponentes da cidade, embora também das mais antigas. 
    Naquele dia, que passaria a ser de triste memória, tanto para a viúva como para o mascate, Chico Turco chegou um pouco mais tarde do que de costume e bastante cansado,  pois tivera um dia de muitas andanças pelas ladeiras da cidade. Jantou, aliás um delicioso pernil de porco, deu alguns dedos de prosa com sua anfitriã  e alegando estar com muito sono, pediu licença com suas mesuras de sempre  e foi direto para o pequeno quarto que a viúva sempre lhe reservava.  É evidente que pedras não dormem, no entanto, poder-se-ia afirmar que Chico mal  se deitou , dormiu como uma pedra, no dizer popular, com direito a sonoros roncos.  Dormiu, até ser despertado por uma pontada de dor bem no centro de seu já avantajado abdome. Abriu os olhos no breu da noite, apalpou o local dolorido e logo depois, outra pontada, dessa vez bem mais forte, o fez levantar.  Precisava ir urgente ao banheiro, aliás o único naquela casa,  característica das residências antigas, mesmo as mais imponentes.  Assim, descalço e na ponta dos pés, preocupando-se para que  as tábuas do assoalho não rangessem  a ponto de despertar Dona Laura, lá se foi  tateando na obscuridade do interior da casa, em direção à parte dos fundos onde ficava a cozinha  e logo depois,  a porta do grande banheiro. Ao chegar na cozinha, estacou de súbito e, junto com as cólicas cada vez mais doloridas, veio-lhe a grande preocupação. A porta do banheiro estava fechada e a claridade e os rumores que vinham de dentro não deixavam dúvidas de que sua bondosa anfitriã lá estava e pelo tipo do barulho que se ouvia, bem característico de quem faz força para expulsar algo dolorido, Dona Laura também deveria estar com uma bruta dor de barriga. “Caganeira das bravas, igual a minha, pensou o mascate”.
  Já não agüentando as cólicas cada vez mais violentas, Chico Turco tentou o quintal, mas a barreira intransponível da porta fechada à chave, tranca e ferrolho impediram-no de atingir a empreitada salvadora. No desespero, veio-lhe a idéia que poderia livrá-lo daquela triste situação, a pia da cozinha. Ainda que os dejetos mal cheirosos a entulhassem, nada que uma boa torneirada de água corrente não limpasse. E assim pensando, ao ultrapassar o limite da resistência, Chico, já de cócoras sobre o mármore descarregou toda sua aflição e desconforto, inclusive sobre a louça de porcelana  que ainda jazia  no fundo da pia.
Que alívio imenso sentiu o mascate, mas que decepção e pavor ao abrir a torneira.  Nem uma gota e olha que o cheiro, ou melhor, a catinga que exalava da cozinha já se espalhava por toda a casa.  E o pior é que o barulho característicos de passos provindos do banheiro indicavam que a boa senhora já havia concluído sua necessidade e se preparava para retornar ao quarto. 
    Chico não pensou duas vezes, pois sua situação mostrava-se irremediável. Segurando as calças atravessou o casarão mal cheiroso numa correria digna de atleta, esbarrando nos móveis para se projetar em seu quarto de hóspede e bater a porta com estardalhaço. Enquanto isso acontecia, a bondosa viúva saía do banheiro a tempo de vislumbrar a correria patética de seu hóspede. De início não entendeu o que acontecia e ficou até envergonhada com o cheiro da casa, pois se sentia a autora do odor desagradável. No entanto, o esclarecimento veio logo em seguida ao acender a luz da cozinha e ver o estado de sua pia e de seus pratos de porcelana.
    O espanto, como num passe de mágica transformou-se em ódio e a viúva enfurecida correu para o quarto do hóspede. Ao transpor a porta o cômodo já estava vazio e a janela entreaberta denunciava a escapada do mascate. Dona Laura ainda pode vislumbrá-lo na penumbra da noite pulando o muro, numa agilidade imprópria para sua idade e porte físico.
  Bem, para terminar este relato, acrescente-se que logo a seguir, tomada de súbita fúria, Dona Laura pegou um machado e destruiu o mármore da pia, não poupando nem suas preciosas louças de porcelana. Pela manhã, ao comprar outra pia, já divulgava pela cidade o acontecido, recomendando que não dessem pouso ao Chico Turco, pois quem faz uma, faz duas ou muito mais.  Contudo,  na verdade, nem precisava da tal recomendação, pois nunca mais alguém viu Chico Turco em Ouro Fino, nem nas cidades vizinhas. Mas a fama de porcalhão permanece até hoje. 

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