sexta-feira, 30 de outubro de 2015

POMPÉIA , A PONTE AÉREA DO AMÉRICA


      José Valentim da Silva, mineiro de Itajubá, em seus tempos de escola pública adorava desenhar personagens dos gibis de antigamente, principalmente o marinheiro Popeye. Daí, por gozação, seus colegas passaram a chamá-lo de Pompéia e o apelido pegou tanto que nunca mais o abandonou. Ainda criança, alto e esguio, especializou-se em saltos acrobáticos, o que lhe rendeu muitas exibições em circos no Sul de Minas. Além do circo, outra de suas paixões era o futebol e bem cedo já fazia seus gols na posição de centro-avante no São Paulo, equipe da segunda divisão de sua cidade.
      Em certa ocasião, o goleiro de seu time adoeceu e o centro-avante Pompéia foi escalado para substituí-lo. Embora nunca houvesse jogado nessa posição, saiu-se maravilhosamente, graças à  elasticidade adquirida  em seus tempos de artista de circo. E não deu outra, daí em diante o centro avante trocou de posição, tornando-se mais tarde um dos grandes ídolos do futebol brasileiro. Contratado pelo Bonsucesso do Rio de Janeiro, sua atuação logo chamou a atenção de um grande clube carioca na época, o América, para onde se transferiu e  permaneceu por mais de dez anos.  
    Pompéia tinha uma característica que o destacava dos outros goleiros. Ele não apenas defendia, mas enfeitava tanto suas defesas com saltos incríveis que suas atuações aproximavam-se de um verdadeiro espetáculo circense. Bolas fáceis que os outros goleiros apenas encaixavam, transformavam-se em demonstrações acrobáticas, para delírio dos torcedores e dos locutores esportivos que o apelidavam de Constellation, famosa aeronave da época, Ponte Aérea e outras designações  relativas ao seu modo de atuar.
    Nelson Rodrigues, teatrólogo e escritor que dispensa adjetivos, torcedor fanático do Fluminense, escrevia excelentes crônicas sobre futebol e numa delas, assim caracteriza Pompéia: É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais acrobático do mundo. Nada tem de simples: − ele complica tudo. Em primeiro lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram geniais.
  Sim, de fato, Pompéia era um artista de circo e transformava suas defesas em obras de arte. A área era seu picadeiro e ao complicar uma defesa aparentemente fácil com saltos ornamentais, sua intenção era brindar o público. Era o malabarista, o acrobata e também o palhaço. E os torcedores deliravam, aplaudiam e até perdoavam quando alguma coisa não dava certo. Sem a menor dúvida, foi o goleiro do América mais amado pela torcida  e até hoje é lembrado com saudade pelos mais velhos, como eu, que tiveram o privilégio de vê-lo atuar.
   Teve um final triste, tanto nas quatro linhas do gramado, quanto na vida. No final de carreira, depois de ter atuado pelo Porto, de Portugal, transferiu-se para um time da Venezuela, o Desportivo Português. E foi exatamente nesta equipe, num jogo amistoso contra o Real Madrid da Espanha que Pompéia encerrou bruscamente sua carreira de jogador.  Num chute fortíssimo do genial Di Stefano, a bola chocou-se com seu rosto.  Pompéia desmaiou e ao acordar no hospital estava completamente cego do olho esquerdo.
  Desiludido, retornou ao Brasil, tornou-se alcoólatra, morrendo abandonado e  na mais completa miséria em 1996, aos 61 anos de idade.
    Pompéia chegou a integrar a seleção brasileira em alguns jogos, foi campeão pelo América em 1960, campeonato histórico,  pois o primeiro a ser realizado no então recém Estado das Guanabara.
    Em seu excelente e divertido livro “Tijucamérica”, o jornalista José Trajano menciona uma frase atribuída a Pompéia em uma entrevista  gravada um pouco antes de morrer,  para o documentário “Futebol” , de João Moreira Salles e Arthur Fontes, ou seja:
  “O goleiro é quem mais gosta da bola. Todo mundo chuta a bola, só o goleiro abraça.”

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