José Valentim da Silva, mineiro de Itajubá, em
seus tempos de escola pública adorava desenhar personagens dos gibis de
antigamente, principalmente o marinheiro Popeye. Daí, por gozação, seus colegas
passaram a chamá-lo de Pompéia e o apelido pegou tanto que nunca mais o
abandonou. Ainda criança, alto e esguio, especializou-se em saltos acrobáticos,
o que lhe rendeu muitas exibições em circos no Sul de Minas. Além do circo,
outra de suas paixões era o futebol e bem cedo já fazia seus gols na posição de
centro-avante no São Paulo, equipe da segunda divisão de sua cidade.
Em
certa ocasião, o goleiro de seu time adoeceu e o centro-avante Pompéia foi
escalado para substituí-lo. Embora nunca houvesse jogado nessa posição, saiu-se
maravilhosamente, graças à elasticidade
adquirida em seus tempos de artista de
circo. E não deu outra, daí em diante o centro avante trocou de posição,
tornando-se mais tarde um dos grandes ídolos do futebol brasileiro. Contratado
pelo Bonsucesso do Rio de Janeiro, sua atuação logo chamou a atenção de um
grande clube carioca na época, o América, para onde se transferiu e permaneceu por mais de dez anos.
Pompéia tinha uma característica que o
destacava dos outros goleiros. Ele não apenas defendia, mas enfeitava tanto
suas defesas com saltos incríveis que suas atuações aproximavam-se de um
verdadeiro espetáculo circense. Bolas fáceis que os outros goleiros apenas
encaixavam, transformavam-se em demonstrações acrobáticas, para delírio dos
torcedores e dos locutores esportivos que o apelidavam de Constellation, famosa
aeronave da época, Ponte Aérea e outras
designações relativas ao seu modo de
atuar.
Nelson Rodrigues, teatrólogo e escritor que
dispensa adjetivos, torcedor fanático do Fluminense, escrevia excelentes
crônicas sobre futebol e numa delas, assim caracteriza Pompéia: “É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais
acrobático do mundo. Nada tem de simples: − ele complica tudo. Em primeiro
lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia
voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas
intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram
geniais.”
Sim,
de fato, Pompéia era um artista de circo e transformava suas defesas em obras
de arte. A área era seu picadeiro e ao complicar uma defesa aparentemente fácil
com saltos ornamentais, sua intenção era brindar o público. Era o malabarista,
o acrobata e também o palhaço. E os torcedores deliravam, aplaudiam e até
perdoavam quando alguma coisa não dava certo. Sem a menor dúvida, foi o goleiro
do América mais amado pela torcida e até
hoje é lembrado com saudade pelos mais velhos, como eu, que tiveram o
privilégio de vê-lo atuar.
Teve um final triste, tanto nas quatro
linhas do gramado, quanto na vida. No final de carreira, depois de ter atuado
pelo Porto, de Portugal, transferiu-se para um time da Venezuela, o Desportivo
Português. E foi exatamente nesta equipe, num jogo amistoso contra o Real
Madrid da Espanha que Pompéia encerrou bruscamente sua carreira de
jogador. Num chute fortíssimo do genial
Di Stefano, a bola chocou-se com seu rosto. Pompéia desmaiou e ao acordar no hospital
estava completamente cego do olho esquerdo.
Desiludido, retornou ao Brasil, tornou-se
alcoólatra, morrendo abandonado e na
mais completa miséria em 1996, aos 61 anos de idade.
Pompéia chegou a integrar a seleção brasileira
em alguns jogos, foi campeão pelo América em 1960, campeonato histórico, pois o primeiro a ser realizado no então
recém Estado das Guanabara.
Em seu excelente e divertido livro
“Tijucamérica”, o jornalista José Trajano menciona uma frase atribuída a
Pompéia em uma entrevista gravada um
pouco antes de morrer, para o
documentário “Futebol” , de João Moreira Salles e Arthur Fontes, ou seja:
“O goleiro é quem mais gosta da bola. Todo
mundo chuta a bola, só o goleiro abraça.”
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